[Cinema] Slender Man, de Sylvain White

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Por: José Pedro Pinto*

Slender Man (2018) | Joey King, Julia Goldani Telles, Jaz Sinclair | Realizado por Sylvain White | 93min.

Adaptação competente, incapaz de fazer jus ao que torna a personagem fascinante

O ano passado passei várias noites do verão deitado na cama com as luzes apagadas, a ler textos publicados em fóruns da internet: contos de utilizadores que falavam de um homem alto e magro, sem cara, que os perseguia. Nos comentários, outros utilizadores faziam críticas literárias a estes contos de terror, e o autor agradecia as opiniões e hiperligava o seu livro, já disponível em formato e-book e para Kindle. Passando tempo suficiente nesses fóruns, apareciam sempre alguns posts diferentes, de autor anónimo, mais antigos e confusos. Nos comentários desses, os utilizadores não gabavam a qualidade da escrita, mas partilhavam do medo do autor, que não respondia.

Alguns tinham hiperligações, que levavam a fóruns estranhos, com ar antigo e abandonado, mas com milhares de tópicos, textos e comentários que provavam que em tempos tinha havido ali uma comunidade muito ativa. Nos arquivos desses fóruns, os utilizadores partilhavam relatos de um homem alto que os perseguia, e imploravam por ajuda a outros utilizadores que sofriam das mesmas visões. Os relatos individuais eram publicados ao longo de semanas e acabavam sempre de repente, sem que o utilizador voltasse a postar no fórum. Nos comentários, era feito o luto por mais uma vítima do homem alto. Havia sempre mais hiperligações a seguir, para fóruns ainda mais estranhos, para vídeos e gravações áudio amadoras, para fotografias com muito grão e documentação extensa sobre um homem alto e magro, sem cara.

Até que aparecia o inevitável conteúdo apenas acessível na deep web, e era aí que a minha escavação atingia um patamar, sempre já perto da madrugada. Era difícil adormecer nessas noites, porque assim que desligava a luz do ecrã via na escuridão do meu quarto a porta a ser entreaberta devagarinho por um homem alto e magro, sem cara.

*Artigo originalmente publicado na edição de 31 de Agosto do Jornal do Centro.

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