Combate à seca.

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António Fernandes Silva - colaborador Dão e Demo jornal digital

Por: António Fernandes Silva

Mal começou a Primavera e já se vêm sinais da carestia que nos vai atingir nos próximos tempos. Ainda as árvores se agitam com pétalas coloridas e começamos a pensar na falta de água que nos vai deixar de língua seca, à espera que rebentem as fontes e a chuva venha atenuar a quebra nas produções agrícolas e a falta de legumes, frutas e hortícolas que coloriam a nossa mesa.

Resmungamos com o preço do leite e do café da manhã e esquecemos os pastos, a broa e a sardinha que, pouco a pouco, desaparecem ou tomados pelas silvas e abandono dos campos ou castigadas pelo abate da frota pesqueira ou pela imposição de quotas que deixam os barcos em terra e os pescadores na penúria.

Vemos reclamações de anos e meses e recusas de prestação de apoios e serviços, em nome da dignificação de carreiras. Vemos enxurradas de benefícios a cair em pequenos grupos e famílias que fecham as portas e janelas para não ver nem ouvir o que se passa lá fora.

Sentimos as tremuras da fome, do frio e do isolamento que nem o sol da Primavera conseguiu retirar das ruas e do vão da escada.

E parece que nada disso existe. Que tudo não passa duma reedição das cantigas de escárnio e de maldizer. E não falta quem queira esfregar a língua e os olhos de quem ainda os tem para ver, apenas porque a realidade denunciada não facilita as procissões na caça aos votos.

Mas a seca não é só falta de água. É também falta de chá, de respeito e, principalmente, falta de ideias.

Por consequência, falta de projetos e soluções que façam chegar o sol e a Primavera a todos os cantos e recantos, sem que os tentem tapar com a peneira.

Não chega esfregar as línguas com o sal de promessas que se penduram ao luar.

Não basta aliciar jovens ou idosos com bengalas ou dependências de emprego. Este Março marçagão quer rasgos de horizontes e quadros onde se pintem sorrisos de esperança e traços de equilíbrio e união.

Se quisermos parar para ver, a seca do respeito e boa educação criou um deserto de separação entre gerações que não deixa crescer, entre elas, qualquer gesto de aproximação, entendimento e apoio.

Vemos crianças e jovens em risco, a sofrer violência, idosos maltratados, deficientes abusados, gente ao abandono, à procura de comida nos caixotes do lixo. Quase se reconhecem mais atenção e direitos aos animais do que às pessoas.

Esta, sim, é a verdadeira seca que importa combater.

As albufeiras do respeito e da boa educação, localizadas na casa de cada um e nas escolas, estão a dar sinais de rutura e esgotamento, ameaçando seca severa.

Se não atalharmos a tempo, o planeta social vai encher-se de carcaças, onde até os cães terão medo de viver, porque as onças e chacais devoram a própria trela e os cães vadios não aprenderam a reconhecer o dono.

O deserto ameaça invadir as nossas praças e jardins.

Teremos de estar atentos para agir em tempo útil e oportuno.Talvez já hoje.

Porque o tempo não espera.

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