Comércio tradicional.

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Ana Nunes - Colaboradora Dão e Demo.

Por: Ana Nunes

Vai para uns dias, num comércio local alguém me reconheceu. Abeirou-se de mim e perguntou:

– Eu conheço-a, você não era filha do senhor que tinha a loja no jardim?…

Como respondi que sim, sorriu e reforçou a razão do porquê de me reconhecer:

– O meu pai era um grande amigo do seu, comprávamos-lhe tudo. Ele sabia os gostos da minha mãe, e regatear o preço era com o meu pai…

Sorri. O meu pai era mesmo assim. Serviço personalizado e proximidade ao cliente eram os seus lemas.

Dono de uma pequena loja comercial, conjuntamente com as feiras que percorria pelos concelhos circundantes ao dele, era desta sua atividade que subsistia a família. Ainda conseguia empregar o cunhado, que o ajudava nas andanças dos mercados, e nos dias mais concorridos de freguesia, na pequena loja.

Quando faleceu, nós, filhos, detentores de outras atividades profissionais, e estando alguns noutros pontos do país, chegámos a acordo no sentido de encerrar o pequeno estabelecimento, dando assim por término ao pequeno negócio local, que já se começava a arrastar com as dificuldades, inerentes à crise que depois assomou o país em 2008.

Em boa hora demos por encerrado a pequena superfície comercial familiar. A partir desse momento foi assistir ao descalabro, aos tempos difíceis que o comércio tradicional viveu e ainda vive.

Sozinhos, os donos destas pequenas lojas, sem apoios quer a nível de formação, ou informação, esquecidos pelo poder autárquico que elegeram, viram o seu espaço económico ser invadido pelas grandes superfícies, devidamente assessoradas e apoiadas politicamente tanto a nível nacional quanto a nível local.

Lembro a reunião que a débil “Associação de Comerciantes” da minha localidade efetuou com os responsáveis camarários. As intervenções de alguns comerciantes mais experientes alertaram para a problemática que seria a abertura destas superfícies, sob risco do pequeno comércio local desmoronar, chamaram também a atenção para o comércio tradicional não possuir nenhum apoio concreto por estas zonas.

A intervenção dos responsáveis municipais da época, limitou-se a informar esses pequenos comerciantes, locais ou de rua, que nada poderiam fazer para limitar essa implementação das grandes superfícies, pois era uma opção de estratégia nacional. Replicaram ainda que estas grandes superfícies traziam aspetos positivos, como o abastecimento dos produtos nos fornecedores locais, a entrada de verbas para os municípios e a criação de postos de trabalho.

Assim se foram implementando as grandes superfícies, por estas regiões, apoiando as suas estratégias concorrenciais em preços mais baixos, com oferta de produtos importados, ou adquiridos a alguns fornecedores locais, pagos estes últimos a preços irrisórios, muito abaixo do seu real valor, e com modalidades de pagamento a 180 dias, ou mais.

Mantendo um horário mais abrangente ao público, mesmo assim, essas superfícies pouca segurança davam a nível de empregabilidade e os ordenados eram pouco compensatórios em função do tempo de trabalho.

Começou a ressentir-se a frágil economia do comércio tradicional. Completamente desprotegida e desamparada pelo poder local, foi o ver encerrar portas, e o debandar das famílias, dando continuação aos ciclos migratórios ou imigratórios, contribuindo assim para a maior desertificação do interior.

As poucas casas de comércio tradicional que resistiram, alguns dos seus proprietários já possuíam idade adiantada, tinham algum fundo de maneio de economias pessoais, amealhadas ao longo da vida, ou então outras atividades paralelas.

A fixação das casas comerciais chinesas, nas pequenas vilas do interior, trouxeram novamente a destabilização à continuada frágil economia, desorganizando, mais uma vez, a subsistência desta tipologia de negócio local. Foi um desfilar de aberturas e encerramentos de portas comerciais devido à impossibilidade de concorrência com estas denominadas “Lojas dos Chineses”.

Felizmente, nestes tempos que correm já vai aparecendo uma “luz ao longe”, sobre o tão massacrado comércio tradicional. Nesta nova era, já se vai visualizando, em algumas zonas do interior, uma nova tipologia de comércio local, reinventado. Algumas autarquias estão a criar ou a apoiar algumas associações de foro comercial, que por sua vez vão recriando a figura do artesão e do produto artesanal, valorizando e promovendo-os nas feiras de especialidade, como por exemplo, nas de turismo, organizando e colocando os produtos no mercado devidamente legalizados e certificados. É o caso das “Associação de Artesãos da Serra da Estrela”, Seia, “Associação Inovterra”, Tarouca, ou mesmo da “Crescer+Inovar” de Sernancelhe. No entanto, ainda é preciso operar uma grande mudança nas empresas comerciais locais, sobretudo ao nível da formação dos seus ativos, na “profissionalização” da sua gestão, numa estratégia de atuação assente na cooperação empresarial. Fechar os olhos à venda paralela do produto no mercado, sem a legalização e certificação necessária do mesmo produto local e artesanal, não é boa política nem para o produto, nem para quem o transaciona.

Penso que, neste momento, estas Associações estão empenhadas nessa legalização, certificação, promoção e internacionalização destes produtos locais únicos, embaixadores das nossas regiões.

Devemos também, nós consumidores, consciencializar-nos que comprar no comércio tradicional, local, ou de rua estamos a contribuir para combater a desertificação populacional dos centros históricos e turísticos das nossas localidades, bem como das zonas rurais.

Lutando assim contra a marginalidade através de uma constante circulação da população, elevando o nível de segurança e harmonia entre a comunidade e a área comercial, proporcionando a estas áreas de lazer uma maior animação cultural.

Ao mesmo tempo “matamos” SAUDADE, alojada no subconsciente das vivências de outrora, defendendo  e promovendo os nossos costumes, hábitos, cultura e identidade.

SER COMERCIANTE DE PAIXÃO É TER AMOR À TRADIÇÃO!

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