Contra os canhões.

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António Fernandes Silva - colaborador Dão e Demo jornal digital

Por: António Fernandes Silva

Aos poucos vai-se amortiçando a chama e o orgulho que nos definia como herdeiros legítimos da força e vigor de uma “nação valente e imortal”.

Os descendentes dos “heróis do mar” têm medo das ondas e venderam, ao desbarato, as cartas e instrumentos da arte de marear, a língua e os manuscritos, que acompanhavam cada mapa e todas as conquistas e séculos de história.

Nem foi preciso chegarem piratas e mercadores andaluzes ou genoveses para desvendar segredos e espionar as escolas de navegação que, todos os dias, tentavam “dar novos mundos ao Mundo”. Morreu essa ânsia incontida de chegar sempre mais longe e mais além, tão específica da alma lusitana.

Espalhamo-nos pelos quatro cantos da Terra, mas perdemos a certificação e a vontade de demonstrar o esplendor e a história desta jangada que sabia abrigar-se do mar, nas horas mais violentas, mas também enfrentar a tempestade e o vento, gerindo crises e vozes de sereias.

Foram-se perdendo joias e anéis, armas e jaquetas, castelos e solares, quintas e obras de arte.

Escapuliram-se empresas e valores. Os campos e terras de cultura ficaram entregues à pouca força dos idosos, antes de serem invadidos por silvados e javalis.

As estradas e caminhos encheram-se de dúvidas e suspeitas sem um palmo de terra limpa, onde possa germinar a alegria e renascer a esperança de “levantar hoje, de novo, o esplendor” dos antigos heróis e construtores desta terra.

O conceito de honra e lealdade, que ergueu castelos e demarcou fronteiras e vassalagens, não consegue hastear bandeiras nem sair a terreiro a clamar por lisura, dignidade e justiça na administração dos bens comuns.

Os ratos, que sempre infestaram esgotos, trincheiras e cavernas, já não se contentam com restos e migalhas ou locais sombrios. Roendo notas e processos, passeiam tranquilos, à luz do dia, nas praças e gabinetes, como verdadeiros senhores do território.

A fragilidade e leveza de costumes inverteu a posição determinante do pensamento, impondo a lei das aparências, sacudindo a responsabilidade de governar e decidir. Como nas ditaduras, os direitos foram tomados de assalto pelas elites e os deveres distribuídos em abundância pela plebe, com sistema de ameaças e vigilância apertada.

Bem podemos encher o peito e bradar contra os canhões e contra os ventos e marés negras que assolam os nossos dias.

Já não há quem marche ou se levante contra esta impunidade de canhões sem recuo que disparam sem mirar objectivos e avaliar as consequências de cada tiro, negando a própria identidade e a de quem deve pôr fogo à peça.

Se aparecer alguém com sentido da honra e do dever, logo se arranjam estratégias de saneamento para que não seja corrija a trajectória da bataria e se deixe a água a correr para o mesmo lado sem que alguém se possa aproximar do rego, mesmo nos dias com direito à rega

Por muito imparciais que sejam os árbitros e juízes, queremos sempre escolher um que se “vire” para a nossa cor. Por maior que seja a competência de quem decide, se a decisão não nos agradar, tentamos furar-lhe os olhos, para que não veja, e arrastamos pela lama a sua coragem e isenção.

Mesmo assim, não se tomam atitudes sérias e definitivas. Deixamos que tudo continue a girar em ritmo livre e descompensado. Ninguém decide nem se compromete.

Entretanto, vamos dizendo a medo que “quase” temos vergonha da nação a que pertencemos, tantas são as tropelias e batotas que nos passam debaixo do nariz.

Só vamos acordar quando nos bater à porta a crueldade da rasoira que nos deixa a gemer na valeta da estrada, a pagar pelo que não fizemos, mas deixamos acontecer.

Serão lágrimas inúteis e tardias. Nem os crocodilos as aceitam, quanto mais as toupeiras!…

Temos de recuperar a força, a voz e o sentido da marcha contra os canhões e contra os atiradores furtivos que andam por aí à solta, antes que se queime, na praça pública, a última réstia de brio e de vergonha de uma nação inteira.

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