Crescer e aprender

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António Fernandes Silva

Por: António Fernandes Silva

O crescimento humano é uma aprendizagem continuada. Parece que, seja qual for a idade, não saímos do espaço da escola, onde há sempre coisas novas para aprender.

Esse espaço tanto pode ser o recreio largo, onde praticamos habilidades e perícias, à vista de toda a gente, como uma franja mais escondida, específica para o desenvolvimento de artes paralelas, que escapam ao livre entendimento, acordo e controle das regras de convivência.

Começa a ficar por aí, esfarrapada, a nossa liberdade de poder crescer num mundo sem fronteiras. Começa a germinar, nesse canto, de forma lenta e progressiva, o nosso voto de exclusão e marginalidade.

Até podemos ser alunos brilhantes, os melhores da turna.

Até nos ligamos à mais fina flor do sucesso de estudantes aplicados.

Sentimos o acompanhamento e apoio dos pais e estruturas escolares.

Basta um momento de distracção, uma noite de euforia para deitar tudo a perder.

Bem sabemos que não é por falta de polícias ou de sinais na estrada que acontecem os acidentes. E a vida é uma viagem, com diferentes ritmos e variações, em que o condutor manifesta as próprias aptidões de humor e resistência, de atenção e ligeireza, de cuidado e descontração, de gentileza e estupidez, de domínio ou de má educação e prepotência.

Diz um provérbio africano que “viajar é aprender”.

Não é só o confronto com outras realidades e paisagens que nos enriquece o baú de viagens.

É também a aceitação de outros usos e culturas, de gente que vive e pensa de forma diferente.

É nesta troca de vidas e experiências que vamos crescendo e alargando horizontes.

Para viajar, para aprender, para crescer não há idades nem lugares específicos. Todos são bons

Os sábios e filósofos das antigas civilizações transmitiam o conhecimento percorrendo as ruas e praças da cidade, de forma gratuita, espevitando a curiosidade, espicaçando a vontade de crescer e correr mundo, provocando a fome de cultura e o abraço do desconhecido.

Porque a imaginação e a fome de saber nunca tiveram limites nem fronteiras.

Foi esta curiosidade que atirou o homem primitivo para fora das cavernas e o lançou ao mar.

É esta chama que continua a fazer cruzar o céu e os mares, numa ânsia incontida de conhecer “todas as coisas”: os segredos e mistérios, a profundidade dos mares, o universo sem fim.

E parece que nunca ficamos satisfeitos. E parece que haverá sempre perguntas sem resposta.

Há também o outro lado da janela que nos mostra o mundo inteiro sem necessidade de dar um passo. O céu e as estrelas cabem-nos inteirinhos na palma da mão. Podemos brincar com eles, trocar-lhes as voltas, descarregar as nossas birras como se fossemos donos de tudo. Chegamos a dar-lhes ordens para que se acendam ou apaguem à hora que entendermos.

Chegamos a querer mudá-los de sítio, apenas porque não obedecem a estes devaneios.

Não percebemos que estamos sozinhos, a falar para as paredes, numa geração de conflitos e guerras interiores, capaz de calar pelas armas a voz da liberdade de aprender a crescer.

Parece que todos os tiranos da história humana sabiam tudo menos viver em sociedade.

Assim, recrutaram exércitos. Assim, teceram o seu casulo, acabando odiados por todos, num castelo de ilusão, onde mais ninguém vivia nem entrava. Restou-lhes a morte e o veneno.

Os tiques desses tiranetes cultivam-se e repetem-se com estas fugas para a frente, a crescer na solidão e no medo, nos truques e trocas de favores, nas rodas fechadas, onde só entra e dança quem calçar os sapatos da cor e do feitio que o chefe gosta de ver no castelo.

Contratar gente para bater palmas, voltar às antigas conversas em família, em discursos de fala mansa, enquanto a chuva fustiga os pobres e desalojados; deixar que o tempo remova pelo cansaço as dificuldades crescentes de quem perdeu a esperança não ajuda a crescer.

As migalhas espalhadas à toa não ensinam a escolher caminhos nem a juntar a passarada.

A encruzilhada do tempo obriga a cultivar as melhores formas de aprender uns com os outros sem perder tempo em conversas adiadas ou repetição de cópias esgotadas.

De braços cruzados, à espera que chova, não crescemos nem aprendemos.

A esperança não pode morrer congelada.

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