Cultura de pobreza.

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José Carreira - colaborador Dão e Demo.

Por: José Carreira

O filme “Jaime”, realizado pelo conceituado cineasta António Pedro Vasconcelos, em 1999, foi reapresentado na RTP1 em homenagem aos 80 anos do realizador que marcou o cinema novo português. Não terá sido o filme que mereceu as melhores críticas dos especialistas e aplausos do público, mas é a par do filme “Os Gatos Não têm Vertigens” (2014), ambos contaram com a participação do saudoso Nicolau Breyner, o que mais me “encheu as medidas”.

O filme começa de madrugada numa padaria, no Porto, onde, no meio dos adultos, alguns miúdos trabalham para ajudar as suas famílias a sobreviver. Conheço bem a exigência de tais tarefas…

Ulisses e Jaime são dois jovens adolescentes que trabalham clandestinamente, sendo explorados por “empresários” sem escrúpulos. Se há áreas em que os progressos se fizeram registar positivamente, o combate ao trabalho infantil é uma delas. Em Portugal, o trabalho infantil tem diminuído ao longo dos anos, sendo os números atuais considerados residuais pelas autoridades.

Já os valores ligados à mendicidade, à prostituição e ao tráfico ainda são preocupantes, questões também retratadas no filme que evidencia o ciclo da pobreza, uma “herança” geracional difícil de contrariar. Os dois protagonistas do filme são exemplos acabados do que significa nascer, crescer e viver num bairro pobre, no seio de famílias enredadas nos labirintos do desemprego, alojamento precário, consumo de drogas, prostituição, violência doméstica, insucesso escolar, exploração laboral…

A dura realidade de se nascer, crescer e viver num determinado contexto familiar, social, económico e cultural só é motivo de preocupação quando um determinado acontecimento, normalmente negativo e pontual, desperta a atenção mediática. Continuamos a ter escassas políticas sociais integradas, coordenadas e ajustadas à realidade de cada território, de cada bairro, de cada agregado familiar, de cada pessoa.

Alastra, em determinadas comunidades uma “cultura de pobreza”, conceito cunhado por Oscar Lewis que considera que os padrões de desigualdade, estando estabelecidos, tendencialmente são geradores de comportamentos que se cristalizam. Assim se explica o que leva muitas pessoas a desistirem de mudar de vida, “acomodando-se” nas suas circunstâncias e ensimesmando-se num fatalismo castrador, perpetuando a pobreza de geração em geração.  

A “cultura de pobreza”, documentada no filme “Jaime”, contínua a fazer parte do quotidiano das famílias de bairros como o Lagarteiro ou o Cerco no Porto, como nos descreve Mariana Correia Pinto no livro “Porto, última estação” (2017):

 “A trilogia habitação, emprego e toxicodependência é compêndio de grande parte dos sufocos do bairro, na qual crescem a violência doméstica e os pedidos de intervenção às comissões de proteção de crianças e jovens em risco.” Com praticamente duas décadas de diferença, a realidade que nos é dada a conhecer, no filme de António Pedro e no livro de Mariana Correia, permanece inexorável, cilindrando gerações, naqueles e em muitos outros bairros das nossas cidades.

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