Deixa que caia.

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António Fernandes Silva - colaborador Dão e Demo jornal digital

Por: António Fernandes Silva

É habitual ouvir-se, pelo Carnaval, uma canção irónica que vai repetindo, vezes sem conta, um refrão a dizer “ se a casa cair, deixa que caia”. Sendo Carnaval, ninguém leva a mal.

Mas a canção entrou na mentalidade corrente do dia a dia e vai-se adaptando ao tempo e às circunstâncias. Se passarmos por qualquer gabinete ou repartição a apresentar aos responsáveis uma reclamação, escrita ou verbal, sobre assunto importante e pertinente, daqueles que toda a gente vê e sente, recebemos sempre a promessa satisfatória e convincente: “ Vamos ver”.

O cidadão consciente volta para casa tranquilo, por ter cumprido o seu dever, esperançado que o problema terá solução rápida. Mas o tempo desfaz-se em meses e anos sem que nada seja corrigido ou reparado, até que se mude o santo do altar. Outro virá e a promessa repete-se. Outro e mais outro e desfia-se o mesmo rosário de promessas e adiamentos.

Acontecem derrocadas e tragédias. Ninguém sabia de nada. Ninguém tinha sido alertado para o perigo. Até os responsáveis, que por ali passavam todos os dias, nunca tinham visto o buraco na estrada, a valeta entupida, a barreira a descompor-se, a ponte a ficar descalça, a curva e o cotovelo a colecionar perigo de acidentes. Só quando a ceifeira se atravessa se deitam contas à vida e se lamentam, em ar pesaroso e contrito, as consequências do que há tantos anos se previa que pudesse acontecer, sem recurso a malabarismos ou artes divinatórias.

É a famosa lembrança, bem nossa, de santa Bárbara apenas quando troveja.

Sucedem-se, então as procissões e novenas aos santos protectores, as corridas aos gabinetes e ministérios de cumplicidade para que nada nos prejudique ou possa retirar a impunidade.

De seguida, treina-se o dedo e a mente para endossar responsabilidade para outros tempos e governações, para esquecimentos e omissões, que já vinham de outros tempos, para os lesados e ofendidos, que nunca se teriam manifestado ou alertado para o problema.

E parece que toda a gente fica de consciência limpa e de bem consigo.

E mais parece que a culpa é de quem teve o azar de “andar por ali”, na hora errada, e que terá, por isso, de sofrer os prejuízos e consequências do acidente.

A mentalidade positiva deste optimismo cego faz acreditar que se vive num país de maravilhas, a rebentar de dívidas, mas capaz de “arrotar postas de pescada”, ao mesmo tempo que  sai para a rua, de bandeira em punho, a protestar contra a carestia de vida e a precaridade do salário e do emprego, aproveitando para comprar bilhete para o próximo jogo de futebol.

Há qualquer parafuso mal apertado nesta geringonça mental.

Será preciso descalçar as botas e sacudir as areias que atrapalham a coincidência da realidade com os sonhos e promessas.

De outra forma, toda a gente encolhe os ombros e vai descansar na ilusão de que serão “os outros” a orientar o seu pensamento e a sua forma de vida.

É que, “se a casa cair”, nós estamos lá dentro e somos quem leva com as telhas e escombros.

Mas não podemos deixar que ela caia nem que se queime a bandeira.

Entretanto, é “tempo de sair para a rua e gritar que é já tempo de emalar a trouxa e zarpar”

O estilo complacente de “vamos ver” – tão usual nos gabinetes e ministérios –  é que deixa as pedreiras invadirem estradas e cegar orçamentos que cristalizam as legítimas pretensões de quem sonha e luta por dias melhores.

A areia do tempo não se compadece com o bailinho de “deixar passar” a brincadeira.

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