De que serve o cinema*

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De que serve o cinema e porque espero que sirva de alguma coisa?

Por: José Pedro Pinto

Tive três encontros que surgiram do pretexto de ir ver um filme – não sei porquê esconder o pretexto de “quero ver-te”. Sei sim, a ambiguidade ameniza o compromisso. A melhor parte dos três filmes foi o cheiro do cabelo e a proximidade dos joelhos e da respiração – é preciso falar baixo e perto no cinema. Então: o cinema serve de pretexto e de espaço em que a proximidade física é prevista e aceite, mesmo entre relativos estranhos.

Quando vi o 2001 fiquei espantado e confuso, e tive pela primeira vez o pensamento de que o universo está limitado pela nossa perceção – e que um ser que tenha mais percepções está para lá da nossa compreensão. O Dias do Paraíso levou-me ao pensamento de que a minha cabeça é uma câmara, a vida um longo plano-sequência, interrompido pelo pestanejar e pelo sono. Então: o cinema serve para levar a pensamentos novos.

Nos últimos meses, o cinema tem sido duas horas semanais agendadas para me sentar, parar e pensar nas minhas coisas – um aparte da vida, para ver que pensamentos aparecem em reação a que imagens e sons, para desligar as notificações e deixar a cabeça divagar. Então: o cinema serve para ter o luxo de não estar em casa, não ter wi-fi, e estar sozinho a olhar as emoções ao espelho. Então: o cinema serve para me servir dele.

*Artigo originalmente publicado na edição de 8 de Junho do Jornal do Centro.

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