E toca o mesmo.

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António Fernandes Silva - colaborador Dão e Demo jornal digital

Por: António Fernandes Silva

Já pouca gente se lembra de umas rodelas pretas de plástico, com um buraco no meio, que se punham no prato rotativo de um aparelho que, com recurso a uma agulha, retirava daquelas estrias as deliciosas melodias capazes de fazer sonhar as gerações desse tempo.

Nem foi há muitos anos. Mas o tempo saltou depressa e fez esquecer as festas e bailes, as praças e salões animados por essas relíquias, nas tardes de domingo. Os realejos e concertinas tinham aberto caminho à espectacular grafonola, que continuava a exigir a inspiração da manivela para fazer rodar as modas e cantigas que toda a gente sabia de cor.

Eram roufenhas e empastadas as músicas que arrancavam, mas faziam sucesso. Havia sempre uma ajuda para dar força à manivela e recuperar o ritmo.

O gira discos apareceu com a cara lavada e a dispensar a intervenção e o controle da mão do dono. Ele girava livremente; tinha outra qualidade de som e aproveitava o outro lado dos novos discos para acrescentar a quantidade da música.

Mas continuava a exigir que alguém virasse o disco para reproduzir outras modas e a agulha só mudava de faixa pela ajuda de alguma mão.

Quando não houvesse grande abundância ou variedade de discos, entrava-se no ciclo de “vira o disco e toca o mesmo”. E o povo continuava a dançar com a mesma animação, indiferente ao gosto de quem manobrava a máquina de som.

A técnica, como quase tudo, dá saltos repentinos e imprevistos. Às vezes, deixa para trás muita coisa útil; outras, despreza sentimentos e tradições; e, em muitas outras, volta atrás para repetir caminhos esquecidos e situações ultrapassadas.

Também na história e na vida se repete, vezes sem conta, o “toca o mesmo”.

Há situações que não andam nem desandam. Os governos e pessoas, à força de olharem só para o que lhes interessa, perdem o sentido do ridículo e caem no marasmo da cepa torta. Continuam a afirmar-se atentos a tudo, mas a adiar para o dia de S. Nunca o que hoje não querem ver, embora tenham sempre pronta e abundante a solução milagrosa do “vamos ver”.

É certo que, como nos bailes, o que o povo quer são festas e dança. E o que mais nos é dado, a cada hora, são “bailinhos” a tudo o que gostaríamos de ver ultrapassado.

Baila-se com as estradas, baila-se com o tratamento de águas e esgotos, os aeroportos, os incêndios e a limpeza da floresta; baila-se com os pobres e com os ricos, com os idosos e doentes, com as escolas e professores, com os orçamentos e aldeias abandonadas, com a seca e o excesso de chuva, com o roubo de armas e polícias espancados.

Baila-se com a oportunidade e interesse do próprio baile.

É só bailaricos!

Até se esquecem cenas que se julgavam ultrapassadas e se condenavam a outos governos e pessoas, noutros tempos.

Em baile de casamento por conveniência, dança-se com parceiros de quem se levam tampas.

E heróis académicos, que há 50 anos ousaram interromper discursos do poder, aplaudem o afastamento e retirada do palco de quem hoje protesta ou pretende “botar faladura”.

Mudam-se os tempos, aguça-se a esperteza das conveniências. Esquece-se que o protesto não tem idade nem estatuto. Como noutros tempos, há gente esquecida a clamar por justiça.

Cada vez é mais difícil viver e saber viver. Porque os livros foram arrecadados por uma elite que não larga o osso e só mostra algumas páginas em marés de interesse.

Aí tudo são rosas. Abre-se o manto e as portas, a distribuir pão e circo, em arruadas de festa.

Quem não gosta de entrar neste baile só terá de apagar a luz e deixar o disco a tocar sempre o mesmo até se riscar.

Pode ser que o baile acabe mais cedo por falta de parceiros ou bailadores ou que alguém caia da cadeira.

O povo sabe e acredita que não há mal que sempre dure. Mas começa a faltar paciência.

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