E toca o mesmo.

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António Fernandes Silva - colaborador Dão e Demo jornal digital

Por: António Fernandes Silva

Ainda há dias circulava por aí uma figura redonda e bem disposta, sem medo da chuva, do frio e da noite, sem tempo para grandes conversas, porque a volta era grande e havia muita gente à sua espera. Até os adultos pareciam acreditar que a sua prenda ia descer pela chaminé.

Ainda não teve tempo de mudar de roupa e regressar ao quentinho da sua casa e já vê o seu nome, o seu lugar e a sua fatiota vestida ou trocada por outras mais modernas, apertada numa gravata, em discursos e promessas que ele nunca se atreveria a anunciar.

É muito discreto e sério o Pai Natal.

Não se viu em ceias, festas e reuniões, nem arriscou chamuscar as barbas em fogueiras de ilusões ou foguetes de lágrimas da passagem de ano para esconder a geada que paralisa as ideias e iniciativas de todos os que, ao longo do ano, tentaram sacudir e acordar para a realidade de cada dia quem se foi deixando adormecer em sortilégios de borda da estrada.                                                                                                                             

E, no entanto, ninguém se pode queixar, nem consta, que ele tenha falhado na entrega de prendas ou se tenha atrasado no cumprimento das obrigações e promessas que a imaginação humana e a inocência das crianças lhe atribuem.

Outras figuras de Pai Natal de trazer por casa, mal o viram recolher, agarraram em sinos e campainhas para badalar aos quatro ventos o que tanto gostamos de ouvir: que o novo ano  será muito melhor, que pagaremos menos impostos, que haverá mais emprego, que as ruas e estradas serão aplanadas, que as dificuldades e deficiências na saúde e no ensino vão desaparecer, que as condições de vida e os imprevistos vão ser acompanhados, que o mar de rosas vai arranjar uma praia para cada um, que os pobres vão ser considerados nas decisões e orçamentos e que, finalmente, se vai restaurar o sentido da honra, da dignidade e do dever em todas as classes sociais, a começar pelos distintos representantes da nação.

Se bem nos lembrarmos, as vírgulas deste saco de prendas e promessas estão no mesmo sítio.

Com a mesma letra e música se andam a cantar as Janeiras destes anos anteriores e de outros mais distantes. Com as mesmas caras, os mesmos adereços e figurantes

Mudam-se os tocadores, vestem-se fatos novos, mas tocam-se as mesmas modas.

Apenas o bombo da festa começa a dar sinais de cansaço de tanta pancada que leva.

E ninguém dá conta que os bombos não servem, apenas, para fazer barulho nas arruadas.

Só quando se juntam a outros instrumentos se começa a perceber o alcance do seu estrondo.

Juntos às campainhas, apitos, guizos e assobios, conseguem fazer ouvir os protestos pelo desprezo social a que estão votados pelos instrumentos de elite das orquestras reinantes.

Nestes primeiros passos do novo ano, há compromissos que não podem continuar adiados.

E os votos de que este seja um Bom Ano dependem do empenho de todos e de cada um.

Para isso, nenhum instrumento pode desafinar ou esganiçar a força e virtude da sua palheta.

Se não se renovarem as pautas e o repertório ou não se aprumar o mestre da charanga, que se afine a requinta, se apele ao esmero do regente e os tocadores saibam ou aprendam a manobrar o instrumento com galhardia para não comprometer o desfile ou rebaixar o prestígio da orquestra.

Todos sabemos distinguir um concerto de Natal e Ano Novo de uma desgarrada.

E não é pelo cenário, luzes e adereços que se avalia a qualidade das peças.

Um Bom Ano de felicidade e de boas soluções para todos.

02.01.2019

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