Entre as brumas.

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António Fernandes Silva - colaborador Dão e Demo jornal digital

Por: António Fernandes Silva

A memória humana é uma espécie de rede onde aparecem penduradas histórias e lendas que nem sempre conseguimos decifrar ou catalogar por datas e se baralham na roda do tempo, como segredos pessoais bem guardados no canto d alma.

São experiências diversas, alegrias e desgostos que se misturam, exaltações e angústias que se encobrem, vitórias e derrotas mal digeridas que nos continuam a provocar azedume.

De acordo com a malha da rede e a textura do fio, aparecem-nos peixes de todos os tamanhos e feitios. Umas vezes caça grossa, outras, apenas mosquitos, que queremos manter à distância, para evitar confusões.

No meio das complicações do dia a dia, sentimos o emaranhado desta rede sem conseguir escapar à fatalidade de uma corda bamba que nos prende e divide entre o sonho e a realidade e nos separa do espaço que ocupamos e dos altos voos que gostaríamos de conseguir.

São as “brumas da memória” que nos separam dos “nossos egrégios avós”.

Embora, na escola, não tenhamos aprendido a classificar a distinção destes versos, sempre os entendemos como ilustres por constarem do hino que se canta, de alma aberta, em ocasiões solenes e importantes.

No entanto, as brumas da memória, esse nevoeiro intenso que nos obriga a andar à deriva, neste mar, vão deixando para trás os avós, afastados da vida e da participação social, presos na rede das suas dificuldades e limitações físicas, a curar feridas de abandono e solidão.

Tudo o que eram tradições e costumes, posturas e ensinamentos perderam-se no emaranhado de uma vida feita a correr, com medo de tudo e de todos, sem coragem de olhar para trás, para não ficarmos transformados em estátuas de sal ou figuras do mar morto.

E assim se deita a perder o tesouro da sabedoria acumulado durante séculos de vida na Terra.

Escaparam antigas receitas culinárias de petiscos e doçarias que se vão desempoeirando, porque o estômago e a gulodice continuam a saber distinguir o que é bom e gostoso sem se deixar iludir com os ventos da moda e das modernices.

Manda o calendário que, no dia 26 de julho de cada ano, se honre a memória dos avós.

Por muito fraca que seja a memória humana, por muito distraídos e preocupados que possamos andar, esta corrida não pode desperdiçar a preciosa herança que nos foi deixado pelos nossos mais ou menos “egrégios avós”.

É uma imposição que nos obriga a varrer o nevoeiro que tolda e empobrece os tempos de convivência que correm. Porque, como é sabido, “quem não sabe honrar o passado, não merece ter futuro” ou, no dizer de Gandhi, “o futuro dependerá daquilo que fazemos no presente”.

Se o não fizermos, terá de se alterar ou riscar, forçosamente, a letra e a música do Hino Nacional, que gostamos de cantar, de peito cheio, nos dias de vitória.

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