Estamos na guerra fria?

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Inês Pina: Colaboradora Dão e Demo

Por: Inês Pina

Lembram-se da Guerra Fria, lembram-se? Ainda me recordo das aulas de história onde se analisava cada detalhe, cada passo dado por cada uma das personagens! Parecia um filme. Estamos a viver o mesmo agora?

A Guerra Fria durou quatro décadas, em muitos aspetos começou e acabou em Berlim (no ano em que nasci!). A boa notícia é que se manteve fria – em grande parte porque as armas nucleares introduziram um travão inexistente em anteriores rivalidades de grandes potências –  houve nessa altura  um esforço sustentado a nível político, económico e militar. Da guerra fria ficará para sempre a eterna corrida para a conquista do espaço.

Um quarto de século após o fim da Guerra Fria encontramo-nos inesperadamente numa segunda. É, ao mesmo tempo, diferente e familiar. A Rússia já não é uma superpotência, mas sim um país de cerca de 145 milhões de pessoas com uma economia dependente do preço do petróleo e do gás e nenhuma ideologia política para oferecer ao mundo. Mesmo assim, continua a ser um dos dois principais estados com armas nucleares, tem um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU (e aqueles votos contra nas resoluções sobre a Síria!!) e está disposta a usar as suas capacidades militares, energéticas e cibernéticas para apoiar amigos e enfraquecer vizinhos e adversários.

Este estado de coisas era tudo menos inevitável. Esperava-se que o fim da Guerra Fria inaugurasse uma nova era de laços amigáveis entre a Rússia e os Estados Unidos e a Europa. Era do consenso geral que a Rússia pós-comunista se concentraria no desenvolvimento económico e político. E as relações tiveram um bom começo quando a Rússia, em vez de ficar ao lado do seu cliente de há muito, o Iraque, cooperou com os EUA para reverter a invasão do Koweit por Saddam Hussein.

A boa vontade não durou. A razão será uma matéria de debate entre os historiadores nas próximas décadas. Alguns observadores culparão os sucessivos presidentes dos EUA, apontando para a falta de apoio económico alargado a uma Rússia em dificuldades e ainda mais ao alargamento da NATO, que, ao tratar a Rússia como um potencial adversário, aumentou as hipóteses de ela se tornar mesmo um adversário.

Vamos ao fósforo atual, que está a incendiar a cena internacional. E não, não se deixam enganar pelos encontros encenados!

O recente caso de envenenamento de um agente duplo de nacionalidade russa e da sua filha, numa cidade do Reino Unido, provocou um conflito diplomático que evoca os tempos mais sombrios da Guerra Fria entre o Ocidente e a então União Soviética e parece extraído de um clássico de John Le Carré. Com uma enorme diferença, porém. nesses tempos, as personagens e intérpretes da intriga internacional pareciam demarcados uns dos outros como num filme a preto e branco dos anos 1950. Hoje, o que surpreende e chega a espantar são as suas semelhanças e cumplicidades secretas.

Vejam lá  se não imaginam Vladimir Putin, Donald Trump ou o ministro dos Estrangeiros britânico, Boris Johnson, à volta de uma mesa partilhando jogos de guerra ou outras manias comuns. Vivem deslumbrados pelos respetivos egos e centrados sobre os seus umbigos, comungam de uma semelhante sobranceria autocrática e um idêntico desprezo pela democracia. Aliás, não foi por acaso que Putin se mostrou tão empenhado em favorecer a eleição de Trump e o “Brexit” (do qual Boris Johnson foi um dos artífices mais fervorosos).

Quanto mais parecido contigo, mais preciso de distinguir-me de ti… – não só para evitar associações comprometedoras, mas também para sublimar rivalidades entre irmãos de espírito. Além disso, foi uma oportunidade de ouro para disfarçar cumplicidades comprometedoras (no caso de Trump) ou fraquezas cada vez mais insustentáveis (no caso de Johnson e da primeira-ministra Theresa May por causa do “Brexit”). Daí a declaração solene que juntou os Estados Unidos, a Alemanha e a França ao Reino Unido, contra Putin – e que este terá porventura agradecido, enquanto contributo para a sua consagração como novo czar da Rússia Eterna.

A Guerra Fria está de volta para responder ao caos das relações internacionais, ao mesmo tempo que a democracia vai definhando e o autoritarismo é promovido como novo horizonte político do mundo globalizado

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