Estou de greve!

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Inês Pina: Colaboradora Dão e Demo

Por: Inês Pina

Recordo-me nos meus tempos de estudante de participar em greves. Na época reclamávamos um aumento da bolsa de estudo. Para quem como eu dependia de bolsas para estudar, receber a bolsa apenas tarde e a más horas era catastrófico. Tal como era receber uma bolsa mínima de apenas 95 euros!

Claro que havia várias realidades. No meu caso, quando já andava no segundo ano de faculdade, que se iniciava em setembro, receber apenas a bolsa ao fim do primeiro trimestre era um grande rombo nas minhas contas. Regra geral sugava-me o dinheiro do trabalho das férias! Achava inadmissível que o processo não fosse mais ágil. Foi por isso que agarrei em mim e fui em direção à assembleia da república. T-Shirt vestida. Faixas feitas e fomos todos de autocarro.

Fizemos marcha. Gritámos palavras de ordem. Defendíamos pontos de vista. Claro que lá pelo meio havia quem fosse mais para “beber umas jolas com o pessoal”. Isso desencantou-me logo ali. Não percebi aquela atitude. Eu estava lá de corpo e alma a defender algo em que acreditava.

Estávamos em 2008 sem instagram e com um fantasma da crise a pairar sobre nós.

A manifestação culminou nas escadas da assembleia, onde estava uma barreira policial (acho que eram para aí uns quatro polícias). Terminou quando alguém disse que alguém nos ia ouvir. Pronto, fim de história. Depois veio a crise, os orçamentos não previram aumento das bolsas e o processo manteve-se na mesma como a lesma.

Como trabalhadora, nunca me manifestei. Nem ingressei em sindicatos. Claro que há questões que me desagradam na minha profissão. Claro que há coisas que não concordo na minha progressão de carreia. Acho que foi um modelo desenhado há muito tempo atrás, está desatualizado. Se me vou manifestar? A Inês de hoje não se vê a fazê-lo.

Vou chegar ao ponto a que quero.

Sou totalmente a favor de greves. Confesso que tinha uma visão muito naïf das mesmas. Julguem que faziam toooda a diferença. Claro que ainda acredito no seu valor, mas não com a mesma força de outrora.

Revi-me e muito nas manifestações do tempo da troika. Também eu cantei com sentimento a canção dos Deolinda: Que parva sou!

Temo que a banalização da greve vá enfraquecendo, o valor de uma das grandes armas da democracia. Senti essa banalização nas sucessivas greves dos transportes, quando estive em Lisboa. Sinto o mesmo com alguns grupos profissionais que neste momento estão a usar a greve como arma contínua.

Quem de facto sente o impacto das greves? Os utentes, os beneficiários dos serviços. Que são simultaneamente a base para que esses grupos profissionais existam. Que seria dos professores sem alunos, dos enfermeiros sem doentes. Atenção, acho muito importante que se criem carreiras específicas dentro da enfermagem. Revejo-me totalmente nesse pedido. Não me revejo na forma. Professores, querem mesmo andar para trás 9 anos, 18 meses e 2 dias! Faz assim tanto sentido, depois de tudo o que todo o país passou? São direitos de outros tempos. Durante nove anos milhares de famílias perderam rendimentos, casas e muitas passaram a depender de cantinas sociais para sobreviverem a uma crise severa. Vamos todos exigir retroativos desse tempo? Retroativos que podem voltar a hipotecar o presente?

Sim, foi dado muito dinheiro à gulosa da banca. Continuaram-se a defender interesses instalados, quer das fundações, quer das energéticas. Revolta? Claro que sim.

Agora vamos apenas e só defender o nosso umbigo?

Hoje, olho para as greves numa ótica mais alargada. Não faria sentido fazermos greves impactantes para que as indústrias percebem que queremos mudar de hábitos? Ou dá muito trabalho?

Veja-se, o caso francês. Não acho que incendiar carros e vandalizar tenha sido o correto. No entanto vi toda uma nação concentrada na luta contra um aumento de imposto. Que tal canalizar todo esse afinco?

Sim, só lutamos, quando nos mexem no bolso. Não nos manifestamos pelo clima, pelos imigrantes, pela corrupção com o mesmo afinco. Dá trabalho e não vemos os efeitos imediatos. Somos comodistas e em parte cúmplices. Gostamos do nosso estilo de vida tal como o concebemos. Andar mais a pé, de bicicleta ou de transportes dá muito trabalho. Usar menos plástico dá trabalho. Lutar pelos que não têm voz é demasiado. Nós também sofremos na nossa vidinha!

É mais fácil mandar umas “postas de pescada” na net, lançar um debate com o mote “ah e tal eles têm isto tudo corrompido, isto é o sistema” do que mudar cada um de nós.

Se a partir de amanhã nenhum de nós comprar mais plástico, as indústrias vão ter de se reinventar. Se ninguémcomprar mais produtos processados, as indústrias vão ter de se reinventar. Se nas próximas eleições votarmos em branco, eles vão ter de mudar a forma defazer política, acreditem!

Isto é um ciclo. Eles também dependem de nós. Cada um de nós gasta o dinheiro onde lhe fizer mais sentido.

Devíamos lutar por um mundo melhor para todos, não apenas pelas nossas capelinhas.

Eu comecei a minha greve contra o plástico e o açúcar.

Bora lá começar uma greve?

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