Fernando Ribeiro de Mello, a Afrodite e a Antologia

0
287
Abílio Travessas: Colaborador Dão e Demo - jornal digital

Por: Abílio Travessas

Valeu a deslocação à Biblioteca Municipal do Porto ver a exposição que nos mostra a actividade do “editor de vanguardas” Fernando Ribeiro de Mello, portuense já pouco lembrado, e que se revela pelos livros, agora raros,  e depoimentos de personalidades da sua época de esplendor, de 1965 a 1975. Foi o “único editor levado a tribunal e condenado durante o Estado Novo” por “abuso de liberdade de imprensa”.

Recordo agora o que escrevi, já lá vão alguns anos: Um dos livros que durante o Estado Novo mais controvérsia suscitou, acusado de pornográfico e retirado do mercado, tão eficiente e rapidamente que poucos são os felizes posuidores da 1ª edição da Afrodite de FR de Mello, foi a Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, com selecção, prefácio e notas de Natália Correia. Há uma 2ª edição (ed.pirata) F. A. Edições SA, Rio de Janeiro, s.d., que consegui adquirir, em 1970, então no degredo milita, na livraria Raiz, em Tomar- não sei se ainda existe e não consigo recordar o porquê da cumplicidade que se estabeleceu com o livreiro que o levou a vender-me “por debaixo do balcão” o exemplar que conservo religiosamente.

O jornal Público no saudoso suplemento literário Mil Folhas, a propósito da reedição nos finais da década de 90 da Antologia contou a história atribulada das 1ªs edições e as razões da recusa de NC em reeditar a antologia. A 3ª edição, da responsabilidade conjunta da Antígona e da Frenesi,  insere uma pequena nota que vale a transcrição “Trata-se duma Antologia dos anos 60 – um livro com história antiga de perseguição do outro regime e de sonegação no dito “novo” e actual regime – que caso bizarro, ninguém até hoje, nem mesmo NC quisera ou autorizara trazer a lume após que fora proibida. O protesto corajoso da irrequieta poetisa de então dava lugar a moderação democrática da idade adulta”.

A 1ª edição, de 1965, ilustrada por Cruzeiro Seixas, só muito recentemente consegui comprar e a preço condizente com o valor da obra, única no nosso panorama histórico-literário. Mas tenho outros, poucos para o meu desejo, obras de qualidade que “se deveu também a colaborações … de tradutores, coordenadores, escritores, grafistas e ilustradores, que o editor soube manter.” O Vinho e a Lira, um pequeno livro de poesia de Natália Correia, capa de veludo vermelho; Antologia do Humor Português, Selecçâo e notas de Virgílio Martinho e Ernesto Sampaio/Desenho de Carlos Ferreiro, Eduardo Batarda, João Machado e José Rodrigues; Aventuras de Alice no País das Maravilhas; O Processo das Virgens, o escândalo sexual com figuras gradas do regime de então que levou à demissão do ministro da Justiça e deu série de qualidade na televisão; Textos Malditos, de Luiz Pacheco; estes dois últimos já depois de Abril  que trouxe o começo do fim do grande editor: Não tenho grandes hipóteses. O momento editorial é mau, e deixou de haver lugar para o meu antigo papel. Não existe nada que me permita editar perigosamente contra.” Fernando Ribeiro de Mello, 1990.

PS: As citações são  do folheto que acompanhava a exposição – Editor de Vanguardas – Fernando Ribeiro de Mello e a Afrodite.

pub

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.