Folhas ao vento.

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António Fernandes Silva - colaborador Dão e Demo jornal digital

Por: António Fernandes Silva

Se as palavras são como as cerejas, que se enlaçam umas nas outras, as ideias serão como as folhas, levadas pelo vento, sem lugar escolhido para repousar e criar raízes, sem recanto para amadurecer e se resguardar dos assobios que as atiram para longe e obrigam a correr mundo, sem se fixarem, misturadas em remoinhos de poeira ou no tropel da chuva sem que alguém as consiga decifrar e traduzir na ordem prática.

Até o cata-vento tem dificuldade em entendê-las. Rodando sobre si mesmo, num esforço inútil de segurar tanto alarido, vê-as cair do campanário e esboroar-se, antes que o sino as possa transmitir em linguagem cifrada aos montes e cercanias.

A luta pela sobrevivência atinge também as ideias e palavras, num turbilhão de insegurança que nos obriga a marcar passo para não sermos arrastados na enxurrada da incerteza, cada vez que tentamos abrir a boca para expressar a mais banal e corrente opinião.

É que o mundo parece ter-se virado ao contrário e cortado as asas da razão, matando teorias, mutilando línguas e palavras, no calvário das gramáticas e na vertigem dos acordos.

A ignorância e atrevimento saíram à rua e voam pelos cantos e esquinas, roubando lugares ao bom senso e à cultura, como se quisessem erguer monumentos à arte de tapar o sol com a peneira, na escravatura das conveniências.

À medida que se aproxima o inverno, resfria-se a capacidade de reagir e de dizer às folhas voadoras e cata-ventos o lado certo de que se levanta a claridade do sol e do tempo.

Assim se vai perdendo a autenticidade das palavras, o sentido e a razão da própria vida.

Penalizam-se as touradas e maus tratos a animais, mas demora-se uma eternidade a identificar e suprir as necessidades humanas de conforto e qualidade de vida. A crueldade sobre crianças e idosos tornou-se tão usual que nos passa ao lado, pintada de amarelo como as folhas empurradas pelo vento, a desafiar a chuva, a conspirar nas valetas, a empecer-nos as ideias.

Cobrem-se de beijos cães e gatos e deixa-se ao relento, sem uma sopa quente e um cobertor o velho e esfarrapado que todos os dias remexe os caixotes do lixo, à nossa porta.

No entanto, as horas dos gabinetes e parlamentos estafam-se a fazer estudos e planeamentos para nos fazer acreditar que o homem é o centro das preocupações das cabeças decisoras.

Do outro lado da cortina, atraídas pela corrente, as moedas continuam a correr para os mesmos sacos, em velocidade cada vez maior, e o vento, severo e agreste, não poupa e fustiga quem bate à porta, na esperança de um gesto de carinho e atenção.

Para os simples humanos, só lhes resta fazer finca-pé para não serem varridos ou confundidos nas folhas que deixaram de se afirmar e voam sem rumo, ao sabor do vento.

Não são as folhas caducas, que se deixam arrastar, que garantem o alvor da Primavera.

A ventania há de passar. Mas o inverno está para durar.

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