Cinfães | Gralheira: Do cabrito no forno até ao colmo por debaixo do telhado, numa das aldeias mais altas de Portugal

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Restaurante Encosta di Moinho

Texto e fotos: Acácio Pinto | Dão e Demo

Situa-se no distrito de Viseu, no concelho de Cinfães, em plena serra do Montemuro e, à semelhança de todas as aldeias do interior, quiçá de todo o Portugal, é uma aldeia em perda de população e muito envelhecida. Abundam os idosos e sobram, vazios, os espaços, hoje calcetados, dos antigos terreiros onde a criançada corria e gritava.

Ali fomos recentemente. A um dos dois restaurantes que todos os dias, mas sobretudo aos fins de semana, levam muitas pessoas à Gralheira.

Aliás é na gastronomia que radica muito do dinamismo económico desta aldeia serrana. Além dos restaurantes há um negócio em torno dos enchidos e dos presuntos e do gado (vacas e cabras) que vai mantendo alguns habitantes ligados à terra.

Comemos, no restaurante Encosta do Moinho, cabrito assado com batata assada no forno e arroz. Estava divinal. Disse-nos o senhor Amadeu que o segredo estava na qualidade da carne. “Estes cabritos são alimentados na serra”. Portanto, nada de rações, só mesmo aquela erva sempre verdinha e tenra regada por gravidade com a água fresca que saindo do ventre da montanha escorre depois para o rio Cabrum. E acrescentou que “o tempero e o forno a lenha” faziam o resto para que aquele cabrito fosse um dos manjares de sempre.

Para a sobremesa foi o leite-creme. Um pitéu. Bem fino e amarelo por baixo daquela crosta queimada com o ferro em brasa. Estava aveludado na textura, era veludo na boca.

Mas para além do cabrito é famoso na Gralheira o cozido, o naco e o bife de vitela arouquesa e o arroz de enchidos. Enfim, uma grande panóplia de pratos típicos! Qual deles o melhor!

Provem e depois opinem, se conseguirem hierarquizá-los.

 

Casas com colmo por debaixo das telhas

Qual lã de vidro, qual quê! É colmo que as casas mais antigas têm por debaixo das telhas. Uma grossa camada de colmo é fixada no teto das casas com um sistema de ripas pregadas nos caibros da armação do telhado.

É bem verdade que antigamente, antes da telha, era o colmo que enfrentava diretamente o sol, a chuva e a neve. Depois o colmo continuou só que com as telhas por cima.

Pormenor do teto de uma habitação, em que o colmo, por baixo das telhas, serve de forro e de proteção ao cline agreste.

Foi isto mesmo que constatámos em algumas casas que visitámos depois de almoço. O José Carlos, o nosso cicerone, um natural da terra, guiou-nos a algumas delas. Todas as pessoas pareciam suas familiares. É assim nas aldeias. Há (havia!) um forte espírito de pertença e de entreajuda. Então nestas, nas mais agrestes, a solidariedade ainda mais aumentava. Só ela permitia viver, combater as agruras do tempo.

Numa das casas em que entrámos lá estava o colmo, todo negro, bem como toda a estrutura de madeira. O fumo encarregou-se de efetuar esta conservante ‘pintura’.

Num dos cantos daquele espaço amplo, lá estava a lareira, funda, à antiga, com a envolvente a servir de banco para a família. E lá estava também o forno onde se cozia o pão. Por cima, ali mesmo à mão, era o caniço. O local onde se colocava a lenha que depois havia de se queimar na lareira. Para além de estar próxima, a lenha acabava por secar com a lareira ali ao lado.

Pormenor da cozinha, funda, com forno/lareira e cantareira.

E a mesa onde estava? A mesa, essa, estava recolhida. Era uma tábua larga que estava levantada e que, quando nessa posição tapava um armário. Estava mesmo junto à lareira e quando descia, fixa com dobradiças, era o local onde a família comia. O armário ficava, agora, aberto e a comida estava ali, nas panelas de ferro, acabada de confecionar.

E o quarto? O espaço era todo amplo. A cama estava no canto oposto ao da lareira. Era uma assoalhada onde tudo cabia e onde cada recanto tinha a sua função bem definida. Ali couberam tantos filhos! Ali se viveram tantos anos de vida dura para os criar, mas com um final feliz. Hoje, estavam todos longe, mas bem. Uns em Lisboa outros no Porto e ainda aqueles que estavam em França e na Suiça.

 

Gralheira: aldeia muito envelhecida

O sinal de envelhecimento acentuado é-nos dado pelas pessoas com quem nos cruzámos na rua. Praticamente todas acima dos 70 anos. E, num café pitoresco, com uma paisagem alpina, encontrámos o pai do José Carlos. Tinha noventas.

Mas a verdadeira evidência do envelhecimento é-nos dada no largo da capela. Ali os gritos não são os de ontem, os das crianças vindas da escola, ali, hoje, são de silêncio, os gritos que se soltam das bocas daquele naipe de idosos, sentados no banco de granito encostado ao alçado nascente da capela do Senhor da Boa Morte. Ao lado, cada um deles tinha a sua bengala ou a sua canadiana. A ‘ajudante’ que os tira de casa para lobrigarem o tempo que passa.

Capela do Senhor da Boa Morte – Gralheira.

Se quiser saber da história dos almocreves, que subiam e desciam a serra até ao rio Douro, questione-os. Se tiver curiosidade sobre víboras, sobre a forma como as apanhavam e sobre a fortuna que rendiam aos homens da serra que as iam vender a Lisboa e ao Porto, às ervanárias, escute-os. Se quiser saber histórias picantes e proibidas sobre homens, mulheres e animais, comece a puxar por eles!

Sim, têm uma idade avançada, mas uma memória de elefante! Lembram-se dos pormenores mais insignificantes, porém, todos com significado.

 

Gralheira, uma das aldeias mais altas de Portugal

A Gralheira é das aldeias mais altas de Portugal. E isso percebe-se pela subida que se efetua a partir de Castro Daire, sobretudo depois do Picão, subindo pela vertente sul. Ou então, pela vertente norte. Comece em Oliveira do Douro, mesmo junto ao rio Douro, siga para Ramires, Vale de Papas e Gralheira.

Pormenor da aldeia da Gralheira.

A sua localização, em termos de altitude, pede meças com a aldeia, dita mais alta de Portugal, do Sabugueiro, na serra da Estrela, a quem ganha. O restaurante Encosta do Moinho refere, na sua ementa, que está a 1101 metros de altitude, porém não é o ponto mais alto da aldeia. A Wikipédia atribui à Gralheira 1130 metros e ao Sabugueiro 1120, mas a Sendim, no concelho de Montalegre, 1155 metros. Apesar de estes valores não baterem certos com outra informação conexa, o que é facto é que em todas as “medições” a Gralheira aparece nos primeiros lugares em termos de altitude, não restando pois dúvidas de que quando ali for, por exemplo em dezembro, visitar a Gralheira que se transforma em “Aldeia do Pai Natal”, estará numa das aldeias mais altas de Portugal.

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