Halloween: A nossa civilização é mestre na arte de transformar qualquer rito cultural numa sopa comercial.

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António Fonseca | Colaborador Dão e Demo

Por: António Fonseca (Lausanne – Suiça)

Com a globalização, do Japão a Portugal e em todos os cantos do mundo,  Halloween é muitas vezes reduzido a uma desculpa para vender tudo e qualquer coisa, na maior parte das vezes de plástico fabricado na China.

Mas, originalmente,  Halloween tinha um significado mais profundo, estabelecido nas estações do ano e no relacionamento “local” com o tempo e a natureza.

Já alguma vez se perguntaram de onde vem Halloween?

É um festa cuja origem está claramente ligada ao movimento das estrelas e  das estações do ano.

Já repararam que a data de Halloween está localizada quase no meio do intervalo de tempo entre o equinócio de outono (por volta de 22 de setembro) e o solstício de inverno (por volta de 21 de dezembro)?

Vá, admitam que não!

Celtas

Há quase 2500 anos, para os celtas das Ilhas Britânicas, o ciclo das estações era muito importante, pois estava intimamente relacionado com o ciclo da vida e da morte. Mas o modo deles determinarem as estações era diferente.

Os livros de historia relatam que, para os celtas, os equinócios e solstícios ocorriam no meio das estações do ano, enquanto o início de cada estação eram as datas medianas. Na realidade, o que importava era a divisão do ano em duas partes: luz e escuridão; como se o ano incluísse apenas duas partes.

Para eles, a transição entre a parte brilhante (verão) e a parte escura representava o começo do inverno. Só que isso não acontece no dia 21 de dezembro, mas sim entre os dias 5 e 8 de novembro.

Eles celebravam com festa, na véspera desta nova estação que chamavam de Samain ou Samhain, o final do verão. Esta celebração anunciava a morte do verão (ou outono) e o fim da colheita.

Nesta época, o Halloween de hoje, ainda não é óbvio, mas pensando nisso, esses conceitos de morte e colheita são uma combinação perfeita para preto e laranja. Assim, podemos imaginar que a festa de Samain é a origem do Halloween, porque os dois marcam de alguma forma a transição entre verão e inverno, luz e sombra, vida e morte.

Cristãos

Por volta de 835, o papa Gregório IV designa um dia para honrar todos os santos: 1º de novembro. Chama-se dia de todos os santos. Segundo alguns historiadores, ele escolheu essa data precisamente para cristianizar a festa de Samain.

Como acontece muitas vezes em datas importantes (Natal por exemplo) uma comemoração é realizada no dia anterior, neste caso noite de todos os santos. Com o tempo, a distorção das palavras (todos os santos) All Hallow em inglês, onde o Hallow vem de santo… e com o passar do tempo (a noite de todos os santos ou dia das bruxas) se torna Halloween …

Os costumes do Halloween

No entanto, o Dia das Bruxas como nós celebramos hoje é mais associado com a tradição pagã do que com a tradição cristã.

Os celtas celebravam o Samain reunindo-se em torno de um grande fogo aceso pelos druidas para guiar os espíritos, pois era alegado que aqueles que haviam morrido no ano em curso voltariam para visitá-los uma última vez.

Como eles esperavam ver fantasmas saindo dos túmulos e bruxas montando vassouras no ar ou se transformando em gatos pretos, os celtas vestiam-se com roupas e pinturas de cara horríveis, esperando que os espíritos malignos os vissem como demónios e não lhes fizessem mal.

Os aldeões também acreditavam que colocar oferendas na frente de suas portas e até mesmo enterrando maçãs ao longo das estradas apaziguaria esses espíritos malignos. Também iam de porta em porta pedir contribuições em alimentos aos seus vizinhos.

Era obviamente uma noite aterrorizante para muitos e todos ficavam em alerta para não cair na armadilha de algum espírito maligno.

Nos meus tempos de criança na minha fria Águas Boas recordo com saudade este dia (que ninguém chamava de Halloween) em que a criançada rufia (tipo eu) da aldeia tocava os sinos da igreja com repreensão (autorizada) do vizinho António da Pereira que com a barulheira do (torreão) lá nos gritava da sua varanda (ah seus galegos, esperem aí que já vão ver!), tal como o sacristão, António Amado, que com um cordel amarrava o badalo dos sinos com nós tão fáceis que acho que fazia de propósito mantendo a tradição que provavelmente também eles no seu tempo tinham vivido enquanto as mães e as tias limpavam e embelezavam as pobres campas rasas dos defuntos com flores no cemitério.

Quando alguém passa pela literatura medieval irlandesa, há muita referência à festa de Samain. Aprendemos que os ingleses e os irlandeses faziam buracos nas beterrabas, batatas e nabos, acrescentando-lhe uma vela para fazer lanternas; essas lanternas que os celtas instalavam como faróis permitindo aos espíritos encontrarem seu caminho.

Após a grande fome de meados do século XIX, muitos imigrantes irlandeses emigraram para os Estados Unidos. Eles carregavam nas suas bagagens a tradição do Halloween que se espalhou pelo continente norte-americano, onde é mais comemorado do que na Europa.

Vocês conhecem a lenda de Jack e sua lanterna? E a história de um irlandês chamado Jack que, sendo muito mesquinho durante toda a sua vida, não teve acesso ao céu após a sua morte. Porém o inferno também lhe proibiu a entrada porque ele tinha criado demasiadas piadas contra o diabo. Ele foi, portanto, condenado a vagar pela terra com sua lanterna.

Talvez o encontres na noite de Halloween vagueando pelas ruas do teu bairro!

Agora toca a passar no supermercado e, ao contrário dos celtas, comprar a mais feia fatiota nova de um qualquer personagem de Hollywood e dois quilos de bombons para festejar com muitas selfies este dia de Halloween.

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