Interrogar o passado, compreender o presente, imaginar o futuro.

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José Carreira - colaborador Dão e Demo.

Por: José Carreira

Pedro Portugal assinou no Ípsilon uma crónica com um título inesperado: “Um mundo sem portugueses”. Haverá algum “recanto” do mundo sem portugueses? Parece que sim: “A iliteracia visual e artística da classe política e elites em Portugal é um drama com 500 anos sem resolução nos próximos 500.”

Esta constatação parece resultar da sua visita às casas das pessoas ricas – “(…) basta entrar nas suas deprimentes casas e olhar embaraçosamente para as paredes (sem passar pelas garagens). Um dos mais ricos mostrou-me orgulhosamente em sua casa desenhos emoldurados feitos pela sua cadela!…WTF!”  

A aparente urticária das elites portuguesas em relação à arte, “Um mundo sem portugueses”, contrasta com a forte apetência dos portugueses pelo “Mundo”:“Desde há 500 anos que há portugueses em todos os cantos do mundo. Ao longo de séculos espalharam pela Terra invenções e maneiras de fazer (…) Anteciparam a Amazon, comercializando na primeira rede global o chá, batata, milho, tabaco, açúcar, café, madeira, cacau, especiarias e escravos.”  

Conhecer 500 anos da nossa história terá algum interesse para as atuais e futuras gerações?

Recordo a polémica que envolveu o sociólogo americano Francis Fukuyama quando publicou o livro “O Fim da História e o Último Homem”. O autor explicou que se referia a História no seu sentido hegeliano e marxista da evolução progressiva das instituições políticas e económicas humanas.” e anuiu: “ A História não pode terminar”.

Se a História não pode terminar, faz sentido conhecê-la para evitarmos a repetição de erros do passado e tomarmos as melhores decisões, numa sociedade mais humanizada.

 Não estou ligado ao ensino da História há 15 anos, mas não posso deixar de me indignar com a contínua deriva contra o ensino da História. É triste e criminoso que as escolas continuem, ao abrigo da flexibilidade curricular, a cortar no número de horas letivas atribuídas à disciplina de História. Quando em 2003/2004 lecionei a disciplina de História, já se faziam sentir os efeitos da reforma curricular, iniciada em 2001, rumo à sua irrelevância curricular que contribui para uma “Humanidade Desmemoriada” (George Steiner).

Se a ignorância é atrevida, a falta de memória histórica é perigosa. Num tempo em que a Europa se confronta com oBrexit, as migrações, os ataques terroristas, a ascensão da extrema-direita, casos de xenofobia, o agudizar de um sentimento latente do “nós” e os “outros” devemos preocupar-nos. Num questionário recente, percebeu-se que 40% dos jovens alemães pouco ou nada sabem sobre o holocausto e há, como sabemos, quem o negue. Saberão os jovens europeus que a civilizada Europa foi palco, no século passado, de duas guerras mundiais trágicas? Saberão os jovens portugueses que houve um regime ditatorial em Portugal?

Nuccio Ordine demonstra como a obsessão pela posse e pelo culto da utilidade acabam por debilitar o espírito e pôr em perigo, não só a escola e a universidade, a arte e a criatividade, mas também a dignidade humana, o amor e a felicidade.

“Desta forma acabar-se-á por apagar a memória com passagens de esponja sucessivas, até à total amnésia. (…) e com ela, infelizmente, extinguir-se-á entre os seres humanos qualquer desejo de interrogar o passado, para compreender o presente e imaginar o futuro. Teremos uma humanidade desmemoriada que perderá por completo o sentido da sua identidade e da sua história.”(A Utilidade do Inútil, Nuccio Ordine, Kalandraka Editora, 2018)

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