Itália faz o “manguito” a Bruxelas e cria rendimento mínimo

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António Fonseca | Colaborador Dão e Demo

Por: António Fonseca (Lausanne – Suiça)

Como De Gaulle, na sua época, os líderes italianos tentam libertar-se da chantagem dos mercados financeiros e deram um forte passo nesse sentido com a criação de um rendimento mínimo.

Esta é a razão da revolta e descontentamento do mundo capitalista ultraliberal da União Europei .

E se a Itália fosse apenas o começo de uma profunda reviravolta do sistema e de suas regras desumanas? Se assim for a Europa dos ricos de Juncker, Macron e Merkel estarão em perigo. Ainda bem, dizemos nós! Estaremos a ir para um Italexit?

Finalmente, os mercados, os sacrossantos templos do ultraliberalismo, tremem. Os grandes bancos, como J.P. Morgan, preveem uma crise em escala mundial. Uii! Quanto à Comissão Europeia, prepara-se para sancionar o futuro orçamento italiano, que, segundo ela, não está seguindo a feuille de route de Bruxelas.

Mas que feuille de route? De quem se riem os oligarcas europeus? Mas o défice italiano é de 2,4% do seu PIB, inferior ao da França! Ah, mas a França pode, Macron é amigo, Macron é europeísta pelo menos em teoria porque na prática a estória é outra: aponta o dedo aos italianos, húngaros, etc., mas prepara-se a continuar com as fronteiras internas fechadas, desde 13 novembro de 2015, por mais seis meses, mantendo sobretudo a fronteira franco-italiana sobre vigilância apertada (não vá um migrante clandestino passar) critica a Itália e Malta por algumas vezes recusar a entrada de barcos de migrantes mas nunca colocou à disposição os muitos portos franceses…

Obviamente que a dor de dentes dos ultraliberais e defensores do mercado financeiro capitalista não são os migrantes. Os líderes dos dois partidos, que formam a coligação governamental italiana, concordaram com uma medida emblemática: o rendimento mínimo de 850 euros, cujo custo, juntamente com uma baixa de impostos e a reforma de aposentação, é estimada em 100 mil milhões de euros. Financiamento bastante suportável pelo orçamento italiano, que ascende a 626 mil milhões para 2019.

Obviamente, para os europeus ultraliberais e dogmáticos, a pílula renegada da península italiana não passa. Quaisquer que sejam as acusações feitas a esta atípica aliança entre as chamadas extrema-esquerda e a extrema-direita (é assim que a Europa chama àqueles que são antissistema, sobretudo europeu), pelo menos há uma que não pode ser feita: eles estão a atender às expectativas do povo.

A poucos meses antes das eleições europeias, a Itália, a terceira potência económica da zona euro, mostra um caminho perigoso para os interesses dos oligarcas europeus, o de um estado a caminho de reconquistar, se não a plena soberania, pelo menos a liberdade de liderar os assuntos do país.

O país de Verdi e seus 60 milhões de habitantes não é a Grécia

Certamente, os espíritos bem-intencionados apontam que Salvini, o ministro do Interior, aplica uma dura política contra os migrantes, recusando algumas vezes a receção destes, nos portos italianos. Deverá o país de Verdi ser o único a carregar a carga de ondas migratórias, sob o pretexto de que as suas margens são o ponto de contacto natural mais próximo, para chegar aos países europeus? Onde está a solidariedade com a Itália?

As autoridades transalpinas apontam justamente a baixa constante dos partidos tradicionais, começando pela França, cujo discurso, hipocritamente generoso do presidente, está em total contradição com a realidade da política. Migração francesa. Hoje Macron tem uma popularidade inferior a François Hollande que saiu pela porta do cavalo colocando o grande partido socialista de François Mitterrand a menos de 10 pontos no xadrez político. A acreditar nas últimas sondagens Macron, que obteve mais de 65% nas eleições presidenciais, não ultrapassará os 20 pontos nas europeias que se aproximam.

Itália, portanto, pânico! Os media franceses, canais televisivos de notícias continuam na linha da frente a fazer declarações alarmistas, após as decisões do governo italiano. Mas se soubermos quem são os proprietários desses medias nem admirados ficamos. Não devemos repetir o episódio grego, dizem, que em 2015  fez tremer, durante alguns meses, o império financeiro mundial, antes da capitulação na campanha aberta do primeiro-ministro Tsipras. Aquela campanha que levou os gregos a votar sim mas que por força da democracia europeia Tsipras foi obrigado a fazer o contrário daquilo que o povo lhe tinha dito.

Mas a Itália, com mais de 60 milhões de habitantes, não é a Grécia, que tem 10 milhões de habitantes. O PIB italiano é 10 vezes o da Grécia e chega a quase 2000 mil milhões de euros, em 2017, para comparar com os 2300 mil milhões da França.

Tal como a geringonça portuguesa, a Itália demonstra que a Europa não detém a verdade sagrada dentro de si

É claro que os lamentos dos economistas eruditos, sobre a dívida pública, não deixaram de surgir. Observações duras, como “depois não se queixem”, choverão, já para não mencionar os insultos contra os “populistas”!

Exceto que, sobre a dívida portuguesa ou francesa, cujos juros enriquecem um punhado de especuladores escondidos por detrás de grandes bancos mundiais, a dívida italiana, mesmo num nível de 132% do PIB, é de propriedade maioritária dos próprios italianos e fortes investidores institucionais, que não têm interesse em ver a economia da Itália entrar em colapso. A título de comparação, a dívida do Japão é de 250%, o que não representa nenhum problema aos japoneses, que possuem mais de 90% dessa mesma dívida.

Assim o facto notável, porque raro e atípico, a aliança entre os líderes do M5 estrelas, Luigi Di Maio e da Liga, Matteo Salvini, depreciado e ridiculizado pela elite europeia, leva a medidas concretas e positivas para os italianos. Ambos deixaram claro que se sentiam livres para não respeitar os compromissos europeus no programa de governo.

A Itália, depois do Reino Unido, em 2016, reivindica, uma parte da sua soberania perdida.

A Europa não é santo graal em si, especialmente esta Europa, concebida exclusivamente no interesse daqueles que detêm o poder.

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