John Ford, João Botelho e Peregrinação nas Correntes d’Escritas

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Foto: coversblog.wordpress.com

Por: Abílio Travessas

Domingo, tarde de Agosto, muito quente, finais da década de 50. Cinema Garrett – Oh! filmes de cowboys do Cinema Garrett (Alexandre Pinheiro Torres, Ilha do Desterro) – com dois filmes, o primeiro um Western de cujo nome não me lembro, a geral, o galinheiro, cheio de pescadores comentando com propósito as aventuras do artistinha, um Cinema Paraíso bem nosso. No calor do Verão o lugar, nos bancos corridos, disputado à imagem das moscas –procuram apertar-se um pouco mais para dar lugar ao adventício – nas paredes das casas da Rua da Junqueira, na prosa de Ramalho Ortigão em As Praias de Portugal, Póvoa de Varzim.

Abílio Travessas

Intervalo! (também havia um Segue imediatamente!). Tempo para as guloseimas no bar do átrio. Regresso ao espectáculo da sétima arte tão amada. Surpresa! Bancos quase vazios. Recostei-me com o prazer antecipado de poder fruir o filme seguinte sem barulhos. De que sabia apenas o nome: O vale era verde, no original americano How green was my valey. Prazer no que via: País de Gales – estava convencido de que era a Irlanda, a correcção foi do Daniel, sabedor colaborador da BM Rocha Peixoto – aldeia de mineiros em luta por melhores condições de vida, greve, conflitos, janelas da casa humilde da família protagonista, apedrejadas. Grevista ou fura greves o homem da casa? Não consigo recordar. Tenho de o rever como outros filmes que não esqueci. A lista é pequena mas deixa saudades, é preciso procurar na nossa Biblioteca ou na Internet.

Quem era o realizador, os actores? Só muito mais tarde conclui que tinha visto uma obra-prima dum dos maiores da história do cinema: Chamo-me, Ford, John Ford e faço filmes, limitou-se a dizer perante a Comissão de Investigação de Actividades Anti-Americanas, nos anos 50. A que propósito estas memórias de tempos que corriam vagarosos? Pois, as Correntes D’Escritas mais João Botelho e Peregrinação. Aula de cinema do realizador que muito ajudou a compreensão do filme. Referidos vários mestres, Rosselini e a escassez de meios no pós-guerra italiano, a Nouvelle Vague e os mestres Jonh Ford e Manoel de Oliveira. Gostei do filme, dos coros com letra e música de Fausto, Por este rio acima,  da abordagem selectiva de quadros dum livro maior da nossa literatura, o outro lado da epopeia  de Os lusíadas.

Por fim, As Correntes. Momentos únicos: a Conferência-Concerto de Abertura, Inácio de Loyola Brandão, acompanhado pela filha, a cantora Rita Gullo e pelo músico Edson Alves; Bento Balói, da Guiné-Bissau, um canto que não consigo definir, mas tão diferente, o poema lido pelo Aurelino, o Inapto Genial; o prazer, sempre,  de ouvir o castelhano do chileno Luís Sepúlveda ao lado do fotógrafo Daniel Mordzinski; um culto-imprevisível, Afonso Cruz; Renato Cisneros, peruano, monocórdico na leitura que me despertou quando falou da má relação com o pai, General Cisneros, dos tempos conturbados das ditaduras sul-americanas e da Operação Condor, levando-me à compra do seu livro; e, também, Daniel Munduruku, um indígena do Brasil que nos deu lição de como lutar com as armas dos brancos contra a destruição das florestas da Amazónia. Mas houve outros momentos que nos encheram a alma…

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