Lojas com história… e sem fim

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Por: José Pedro Gomes*

Viseu é uma cidade com mais de 2.500 anos de história e um património riquíssimo.

No dia 16 de Fevereiro de 2016, o Município de Viseu lançou o “Plano de Acção Viseu Património 2016-2024”. “A iniciativa, composta por diversas fases de intervenção durante 8 anos, tem em vista o conhecimento, a protecção e a valorização do património cultural, material e imaterial, da cidade e da sua história profundamente ligada à ideia de nacionalidade.”

Outras cidades nacionais “pensam” da mesma forma e têm concretizado projectos interessantes, em termos de planeamento urbano e elementos arquitectónicos, património cultural e actividades económicas. Destaco as cidades do Porto e de Lisboa, e os seus projectos “Porto de Tradição” e “Lojas com História”, respectivamente. De facto, tal como é referido no projecto de Lisboa, “num mundo global e altamente competitivo, cada cidade e cada região tem que se afirmar, necessariamente, pela diferença, pelo que a torna especial. É essa diferença que a torna mais atractiva para quem tem que escolher um destino de férias, de estudo, de trabalho, de investimento ou para qualquer outro objetivo.” E ainda: “O comércio de uma cidade pode, e deve, ser um dos elementos distintivos e diferenciadores entre cidades. O comércio teve, sempre, ao longo da História, um papel muito relevante. E o comércio continua a ter um lugar muito relevante na vida económica, social e cultural da cidade.”

O projecto que os Vereadores do PS na Câmara Municipal de Viseu propuseram no mês passado era muito similar aos já destacados e que se encontram em funcionamento nas cidades do Porto e de Lisboa.

No fundo, a ideia era posicionar o comércio como marca diferenciadora de cidade e, simultaneamente, actividade económica geradora de emprego. Evidentemente, cada cidade tem a sua especificidade. No caso de Viseu, por exemplo, trataríamos de uma quantidade de lojas muito inferior. Mesmo assim, considerámos que este projecto, adaptado à realidade de Viseu, poderia ser muito interessante.

De facto, faz todo o sentido “trabalhar com o comércio tradicional e histórico da cidade (…) no sentido de, por um lado, preservar e salvaguardar os estabelecimentos e o seu património material, histórico e cultural, e por outro lado, dinamizar e reactivar a actividade comercial, essencial para a sua existência.” 

Poderíamos começar por um processo de caracterização, mapeamento e definição de critérios para uma classificação de “Lojas Com História”, de acordo com elementos urbanísticos, culturais e económicos. Passaríamos para o levantamento de todas as “Lojas Com História” existentes, nos termos dos critérios definidos. De seguida, o desenho e aplicação de uma marca activa e identitária de comércio da cidade, a partir da qual diversos conteúdos seriam produzidos, nomeadamente um guia, actividades conjuntas das lojas, colecções de produtos, prémios, bem como um conjunto de benefícios associados, isenções e outras medidas especiais.

Com base nos princípios definidos, nos objectivos estabelecidos e na vontade que temos, enquanto Vereadores, em contribuir para a iniciativa municipal “Viseu Património 2016-2024” com ideias concretas, disponibilizámo-nos também para participar e integrar um eventual grupo de trabalho que desse início a este projecto. Sugerimos ainda que a Associação Comercial fosse também convidada para o efeito, tal como outras instituições do nosso concelho.

Essa primeira fase seria transversal e complexa, e nessa medida, crucial. Só seria possível com um trabalho técnico muito completo e criterioso, que permitisse definir, identificar, avaliar e proteger. Um trabalho movido por um sentido de urgência na protecção de um património, onde reside uma parte relevante da identidade e carácter da cidade e que é, ao mesmo tempo, um importante mecanismo social e económico para o desenvolvimento da mesma.

O lançamento do projecto “Lojas com História”, através da criação de um grupo de trabalho que tivesse a missão de testar e densificar critérios para o reconhecimento de estabelecimentos e de entidades de interesse histórico, cultural e social da cidade de Viseu, foi rejeitado com os votos contra dos Vereadores do PSD.

Não nos surpreendeu. Como não nos surpreende o anúncio de encerramento da Livraria Alfabarrista Sidarta, situada na Rua Direita.

Esta é mais uma prova de que a lógica que subjaz a esta proposta fazia e faz sentido. É mais uma prova de que temos de manter vivo o sentido de urgência na protecção do património aqui referido e reconhecer a importância de salvaguardar o comércio local e tradicional e as entidades de interesse histórico que pela sua actividade, património material ou imaterial, constituem uma relevante referência cultural ou social para a cidade.

Continuaremos a fazer a nossa parte. A exigir e a insistir com o executivo camarário. Porque continuamos a ter razões para isso. Para que as lojas não tenham fim. E uma parte da essência da cidade também.

(*) Vereador do PS na Câmara Municipal de Viseu

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