Mercadoria Humana

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Vítor Santos - colaborador Dão e Demo.

Por: Vítor Santos*

O tráfico de seres humanos é uma das maiores violações dos Direitos Humanos, pois configura uma forma de escravidão, quer seja sexual ou laboral, que se aproveita da pobreza de sociedades localizadas na sua maioria em África ou na América do Sul.

A comunicação social tem dado, nas últimas semanas, maior visibilidade a casos de tráfico de seres humanos no futebol. Surpresa para muitos e confirmação para outros?!

O sonho de muitos jovens de ser jogador profissional de futebol leva‑os a acreditar em promessas de empresários que mais não são que exploradores de sonhos. Os clubes pactuam ao receberem estes atletas por entenderem ser uma mais-valia desportiva. Conjuga-se assim a ganância do dinheiro com a da vitória desportiva.

Ilustração: Paulo Medeiros

Os jovens atletas são aliciados para jogar na Europa, pagam milhares de euros a intermediários por promessas de grandes contratos e de um futuro melhor. Portugal é a porta de entrada. Muitos são abandonados, passam fome e falta de teto para dormir.

Pensamos que a escravatura é coisa do passado, o que não corresponde à verdade. Hoje, estes jovens são aliciados para a aventura na esperança de uma vida melhor, através da prática desportiva, e acabam por ser escravos dos tempos modernos.

Esta exploração laboral não pode ser ignorada pelo Estado que tem mecanismos que lhe permitem atuar a nível criminal e reportar às Instâncias desportivas para que penalizem todos os intervenientes nestes casos. A sanção desportiva tem de estar presente e ser dissuasora.

A falência dos clubes e a sua sede de ganhar contribuem para este “mercado”. Formar atletas e proporcionar aos jovens locais a prática desportiva não dão tanto protagonismo como uma vitória, mesmo que efémera e sem sustentabilidade.

Dados do Observatório do Tráfico de Seres Humanos revelam que, entre 2015 e 2017, houve 15 vítimas deste “negócio” no futebol. Acredita-se que o número pode aumentar este ano.

Torna-se urgente criar uma estratégia que combata os grupos organizados que vendem ilusões e lucram com os sonhos de tantos jovens futebolistas. O modus operandi é igual ao de outras situações de exploração laboral: sonegação de documentos e cativação de rendimentos, que colocam estes jovens em total dependência de terceiros.

O desporto é um veículo de transmissão de valores positivos para a plena formação do indivíduo e está dotado de projeções benéficas para o todo social. Por isso, estas situações de escravatura têm de ser erradicadas de vez com severas punições para quem as pratica.

(*) Embaixador do Plano Nacional de Ética Desportiva

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