Mestres e doutores

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António Fernandes Silva - colaborador Dão e Demo jornal digital

Por: António Fernandes Silva(*)

As altas instâncias da cultura reservam uma prateleira modesta para o desenvolvimento académico deste país de brandos costumes.

Salvo honrosas excepções e merecidas distinções, o que mais se realça em diversos relatórios é o reduzido grau geral de escolaridade e o crescente nível de dificuldade de ler e escrever e, sobretudo, de conseguir entender o que se lê.

Quer isto dizer que, apesar do investimento na área do ensino, estamos a andar para trás e a perder o combóio fundamental de saber ” ler, escrever e contar” que define os escalões do analfabetismo.

Mesmo se o quisermos catalogar com a moderna capa de “analfabetismo funcional”, continuaremos na cauda dos países evoluídos, que pretendem acompanhar o vento e a maré do desenvolvimento intelectual, como determinante do crescimento global.

Apesar de tudo, as nossas praças estão apinhadas de doutores. De anel e cartola, de togas e pergaminhos, de lareira ou da mula ruça.

Noutros tempos, a classe de doutores esgotava-se em duas ou três categorias profissionais.

Até os médicos eram especialistas da saúde, muitas vezes identificados na figura do João Semana, num serviço e desempenho que ficou para a história.

Para arrancar um dente, mesmo na cidade, recorriam ao barbeiro; para consolidar fracturas, lá estavam os sapateiros. Os nascimentos aconteciam em casa, com a ajuda de parteiras experientes, que davam o primeiro banho à criança e ensinavam à mãe os tratamentos a seguir.

Eram outros tempos. Umas vezes corria bem, outras menos mal e outras deixavam marcas e deformações para a vida inteira. Tempo dos mestres: do mestre-sala, do mestre-escola, do mestre-de-obras, do mestre-alfaiate, sapateiro ou carpinteiro.

Eram verdadeiros peritos na sua arte. O seu mérito e competência orientavam e ensinavam a cada um a melhor forma de executar a tarefa que lhe fosse confiada.

Ainda hoje se distingue e reconhece o saber e a mão de mestre em obras bem executadas.

O tempo deu-nos muitos doutores, mas roubou-nos os poucos mestres.

O velho mestre-escola e as professoras, que nos ensinaram as primeiras letras e nos acompanhavam de perto com verdadeira e autêntica devoção, são, hoje, todos doutores.

Não será por sua culpa que o analfabetismo funcional galopa desenfreado pelas ruas transversais do nosso tempo. Mas também não será por acaso que ele se afirma e desenvolve, como uma colónia de insectos e parasitas, que nos picam, incomodam e adormecem.

Alguém terá de inventar uma vacina ou repelente capaz de sacudir abusos e excessos, interesses pessoais e exigências tontas, renovando a capacidade dos mestres para orientar o que parece não ter conserto.

Se a composição tiver de misturar responsos com atitudes responsáveis de gente que saiba distinguir e defender a sério o bem comum, que Santo António nos valha e oriente.

Porque a sua simplicidade de frade conseguiu que até os peixes o entendessem.

(*) 13-06-2018 (Em dia de Stº António)

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