Moradas falsas.

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António Fernandes Silva - colaborador Dão e Demo jornal digital

Por: António Fernandes Silva

O calor de Verão começa a deixar-nos recuperar o jeito de pensar e a capacidade de conseguir ver à nossa volta. O frenesim das festas e romarias, a loucura da música e dos festivais vão apagando as luzes e, pouco a pouco, a vida regressa à normalidade de todos os dias, deixando ouvir os sinos e avisos que, hora a hora, nos vão lembrando o lado mais sério e difícil da vida.

Contra a vontade, deixamos para trás os cantos da cigarra para voltarmos ao trabalho e ao carreiro organizado do formigueiro social que o descanso das férias ajudou a pendurar.

O ritmo aligeirado pôs de lado as crises e dificuldades, o impacto de possíveis agravamentos e carestias, o custo da recuperação das aldeias ardidas e do repovoamento florestal, a falta de especialistas e técnicos nas áreas mais sensíveis da saúde e da defesa da vida, as greves anunciadas, os comboios sem linhas nem maquinistas, sem horas de partida ou de chegada, as escolas e hospitais sem gente pronta a dar respostas às dores e preocupações.

Neste despertar confuso, entre a indiferença e a revolta, mascamos a pastilha para iludir e adiar a realidade como se o amanhã não dependesse das decisões de hoje. E preferimos continuar a encolher os ombros e citar filosoficamente um escritor grego da antiguidade que, numa encruzilhada semelhante, engolia exercícios de indiferença, atrevendo-se a recomendar:

“Conhecerás o futuro quando ele chegar; antes disso, esquece-o.” (Ésquilo)

Com esta anestesia, torna-se normal e corrente a histórica lembrança e recurso a santa Bárbara quando a trovoada nos aperta.

Tudo o resto, as nuvens carregadas no horizonte, o vento e a poeira a entrar pela janela podem levar para longe a trovoada eminente.

Sabemos todos que “quem semeia ventos, colhe tempestades”.

Há muito que a raiva dos simples e indefesos esbarra na facilidade e cobertura de “quem tem capa”. Esses arranjam sempre forma de escapar entre os pingos da chuva e os artifícios da lei.

De um momento para o outro, cresceram florestas de arranjos e amigos de toda a espécie.

E a legião de aprendizes, que aproveitou os ensinamentos de cartilhas em segunda mão, deixadas ao abandono, depressa aprendeu a lição e a ler nas entrelinhas.

Já não são cursos tirados ao domingo ou licenciaturas à custa de viagens pagas ao estrangeiro.

Arranjam-se moradas falsas, no Parlamento, para garantir suplementos de ordenados e rendas de casa, para escolher locais de matrícula, para ter acesso privilegiado a recuperação de casas supostamente destruídas pelo fogo e usufruir de donativos recolhidos para o efeito.

E toda a gente sabe disso e continua a assobiar para o lado.

Os abusos marcam e ofendem a dignidade de todos, destroçam o tesouro e a moral comum.

E todos os abusos nos atiram para um poço sem fundo, onde não será fácil identificar quem nos ofende e martiriza, de forma tão persistente, com taxas e maus exemplos.

É verdade que alguns ofendem e revoltam mais que outros.

Mas cesteiro que faz um cesto, faz um cento, sem se preocupar com o seu tamanho ou feitio.

Depois do mal feito, pouco valem os castigos e pedidos de perdão.

Quando faltam elementares princípios de respeito pela pessoa humana, quando os tubarões rebentam todas as malhas e arruínam consciências, só as moradas falsas ajudam o peixe miúdo a iludir a sua loca e a escapar à condenação de eterno isco dos chacais que “comem tudo e não deixam nada”.

Afinem-se as agulhas de marear para escaparmos “depressa e em força” destas águas turvas!

O tanque dos tubarões é demasiado perigoso para treinar mergulhos.

29.08.2018

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