MOTA: Há 60 anos a produzir, em Águas Boas – Sátão, máquinas agrícolas para todo o país.

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José Mota, junto de algumas das suas máquinas agrícolas (Foto: Dão e Demo)

Reportagem: Acácio Pinto (Texto e fotos)

MOTA | Águas Boas | Sátão, são os três nomes gravados em todas as máquinas que se produzem há 60 anos 

A empresa MOTA localiza-se em Águas Boas, uma das aldeias mais pequenas do concelho de Sátão, hoje integrando, com Forles, uma união de freguesias.

Foi ali, no norte do concelho de Sátão, que nasceu a empresa, naquela localidade fria, profundamente rural, localizada naquele planalto das aquilinianas Terras do Demo.

Foi nos finais da década de 50, quando os lobos uivavam, que um “homem inteiriço”, como diria Aquilino Ribeiro, lançou as sementes desta unidade industrial.

Vista geral da empresa, vendo-se dois dos três pavilhões (Foto: Dão e Demo)

Foi Álvaro de Almeida Mota, o pioneiro, que mais do que um empreendedor, como se diz hoje, foi, isso sim, naqueles tempos ásperos e sinuosos, um homem de coragem, de perseverança, de teimosia, quiça de rebeldia.

Foi um homem que quis romper com as amarras atávicas e ir mais além, para se lançar na fabricação de máquinas que pudessem malhar o centeio uma das principais produções agrícolas da região, à época.

Foi obra dura. Foram muitos dias e noites de trabalho, algum trabalho perdido, para chegar ao sucesso e à fama.

E se Álvaro Mota foi o homem desse ontem difícil, José Mota, o seu filho, não querendo deixar morrer esse legado, prossegue-o, neste hoje também difícil, com igual denodo e determinação, em Águas Boas, num local que a globalização consideraria improvável.

Foi, precisamente, com José Mota, o atual responsável das máquinas agrícolas Mota, que conversámos.

QUEM É JOSÉ MOTA?

José Mota tem 65 anos e também uma vida dedicada às máquinas agrícolas e à agricultura. Passou pelo estado, onde trabalhou como engenheiro agrícola, curso que concluiu em Coimbra em 1974, com especialização em máquinas, e hoje dedica-se exclusivamente à sua empresa.

E se à época, o visionário Álvaro Almeida Mota, seu pai, no longínquo ano de 1957, “começou com a ferragem de rodas de carros de bois a que de imediato se seguiu a fabricação de malhadeiras de centeio, as primeiras com motor a petróleo e depois a gasóleo“, hoje a maquinaria ali construída é de uma enorme variedade, como resposta às inúmeras necessidades dos agricultores.

José Mota mostrando um dos componentes das suas máquinas (Foto: Dão e Demo)

José Mota assume-se como “um pequeno empresário [e empreendedor, dizemos nós] que continua a acreditar na sua terra” onde produz, com os seus três empregados, máquinas agrícolas à dimensão e com as particularidades de cada um dos muitos clientes que tem espalhados por todo o país, desde Trás-os-Montes até ao Algarve e Madeura, mas também em Espanha, Angola, Moçambique e “também no Canadá temos máquinas de britar amêndoas, compradas por emigrantes que em vez de comprarem o miolo da amêndoa, compram as máquinas e britam lá as amêndoas, comercializando de seguida o miolo”.

Quanto ao seu início na liderança da empresa que o seu pai fundou, José Mota refere-nos que foi nos anos 80 do século XX, quando o seu pai deixou de poder trabalhar. E foi ainda nas antigas oficinas, no meio da aldeia de Águas Boas que começou. Hoje a empresa localiza-se em pavilhões mais modernos e funcionais na periferia da aldeia.

“Quando as malhadeiras deixaram de ter procura, tivemos que inventar novas máquinas para subsistir”

Mas foi logo no início das suas funções à frente da empresa que José Mota se confrontou com um problema: “As malhadeiras de centeio, principal produção da empresa, começaram a ter pouca procura, com o abandono das terras e do cultivo do centeio a que se seguiu a entrada de Portugal na CEE. Por isso tivemos que inventar novas máquinas para subsistir; e inventámos”.

(Foto: Dão e Demo)

E aquela máquina com que começaram a nova fase foi a “erguedeira de azeitona que na altura começou a ter muita procura e, de seguida, as descascadeiras das amêndoas”.

E prosseguindo, referiu-nos que começaram “também a fabricar as malhadeiras de milho, os rachadores de lenha, os arrancadores de batatas e tantas outras máquinas”.

E é com orgulho que José Mota nos mostra os vários exemplares que são fabricados na sua linha de montagem pelos seus empregados de quem fala com afetividade.

“A nossa mais recente invenção foi a britadeira de ouriços”

Olhe, a máquina mais recente que inventámos foi esta aqui, a britadeira de ouriços. Sabe que no ano passado as castanhas não saiam dos ouriços e vendemos muitas destas máquinas que retiram as castanhas dos ouriços e separam-nas podendo ser utlizadas no próprio souto”.

E esta aqui, perguntámos, sobre uma máquina de alguma dimensão, e que apresentava várias saídas?

Essa é uma calibradora de castanhas. Estamos a vender muitas agora. As castanhas são separadas pelo seu tamanho. Faz quatro tamanhos desde as mais pequenas até às maiores”.

Quem as utiliza?

Os próprios produtores, mas também os revendedores, pois que nas cidades as pessoas que assam as castanhas utilizam castanhas uniformes, todas do mesmo tamanho. Por isso temos vendido também destas máquinas para Lisboa e para o Porto e não só para os produtores”.

Mais adiante fomos confrontados com as máquinas de descascar e de britar amêndoas. Modelos que têm também o seu cunho próprio e a sua invenção.

no ano passado fabricámos mais de 250 máquinas de amêndoa. Foi o melhor ano de produção de amêndoa”

Olhe, no ano passado fabricámos mais de 250 máquinas de amêndoa. Foi o melhor ano de produção de amêndoa e nós fabricámos muitas máquinas”.

Interior de uma britadeira de amêndoa (Foto: Dão e Demo)

E continuou: “Sabe que estas máquinas, no caso da britadeira, têm que ser adaptadas aos tamanhos das amêndoas e à dureza da casca, para que o miolo não seja esmagado e nas descascadeiras, as borrachas também têm que ser de acordo com as qualidades”.

E especificou: “Olhe, ainda a semana passada comprei um saco de amêndoas”, que nos mostrou, “para fazermos testes quanto às grelhas e às perfurações que temos que efetuar nas britadeiras”.

Trata-se de máquinas elétricas, atirámos, nós?

“Nós tanto fazemos máquinas elétricas, como fazemos máquinas adaptadas aos tratores”

Nós tanto fazemos máquinas elétricas, como fazemos máquinas adaptadas aos tratores, para nós esse não é o problema. E sempre que podemos compramos os componentes que utilizamos em Portugal, o que nem sempre é possível e daí também termos que recorrer ao mercado espanhol”.

Máquinas no pavilhão de pintura (Foto: Dão e Demo)

Depois passámos pelo pavilhão de pintura. Ali estavam agrupadas mais de uma dezena de máquinas pintadas e aí José Mota esclareceu-nos quanto às cores utilizadas referindo que se no início começaram com as malhadeiras amarelas hoje trabalhavam mais com “cor de laranja, também verde, azul e é conforme os clientes quiserem”.

Sabe que há tratores de muitas cores e os clientes por vezes querem a máquina agrícola com a mesma cor do trator. Olhe, por exemplo, aquele elevador de vindima é verde, que é a cor de uma marca de tratores”.

Elevadores de vindima?

Sim, hoje vendemos também muitos elevadores de vindima, sobretudo para as regiões onde há muitas vinhas, como por exemplo na região de Pinhel e de Figueira de Castelo Rodrigo e outras”.

Elevador de vindima (Foto: Dão e Demo)

Preço?

É das máquinas mais caras que fabricamos, pode ir até cerca de 3000 euros, assim como temos arrancadores de batatas para o mesmo valor. Tudo depende da potência e do tamanho”.

E as máquinas mais baratas que produzem, quais são?

Temos charruecos e também arrancadores de batatas na ordem dos 400 euros”.

E qual é modelo que utilizam para comercializar as vossas máquinas?

“temos distribuidores espalhados pelo país e também fazemos as feiras da região”

As pessoas conhecem-nos e vêm aqui comprar. Para além disso temos distribuidores espalhados pelo país, sobretudo no nordeste transmontano, no Douro, na raia, mas também no litoral e fazemos todas as semanas a feira de Trancoso e outras feiras de alguma dimensão que existem na região. Também costumamos marcar presença em feiras anuais e mostras temáticas de alfaias e máquinas agrícolas”.

Depois, o nosso interlocutor devou-nos até à área de soldadura e de início da produção.

Aqui temos duas capinadeiras em início de fabricação. Foi o trabalho de hoje de um dos trabalhadores. Está aqui a ver? As perfurações e os cortes do aço é efetuado a laser para ficar mais perfeito e esse trabalho mandamos e fazer fora”.

Capinadeira em início de produção (Foto: Dão e Demo)

E continou:

O aço com que trabalhamos é sempre de grande qualidade. Aliás os nossos produtos são todos de qualidade. Por isso é que nem sempre os nossos preços são os mais baixos. Mas sabe que isso também nos dá o conforto de não termos problemas com as nossas máquinas”.

E quanto à garantia?

“Até ao domingo damos assistência, se for preciso”

É de dois anos e damos assistência em qualquer dia da semana. Até ao domingo se for preciso, o que já aconteceu”.

E prosseguiu:

Esse não é o nosso problema. Nós fazemos máquinas de qualidade. E já agora deixe-me referir que as nossas máquinas estão todas homologadas pelas normas de segurança europeias e todas têm um número de série sequencial”.

E a caminhada pelos cantos e recantos dos pavilhões prosseguiu. Fomos a todo o lado e, sobre sobre cada máquina, José Mota explicava-nos ao pormenor o seu funcionamento e os aspetos mais mais particulares. Abria as máquinas para nos explicar o porquê das grelhas, para nos mostrar os pormenores do corte do aço, para nos falar do “sem fim” das britadeiras e até nos mostrou umas prensas de queijos que também fizeram, em tempos, mas que hoje já não se utilizam.

Foi deliciosa esta incursão numa indústria, pequena, mas com um trbalho de qualidade e com uma grande capacidade de adaptação às necessidades dos novos tempos e dos novos produtos que se produzem no mundo rural.

Nós não paramos, estamos sempre a inventar máquinas e disponíveis para fazer experiências que possam dar novas respostas às novas necessidades dos pequenos e médios agricultores, para quem trabalhamos“, referiu-nos José Mota para terminar.

E, quando assim é, resta-nos agradecer e deixar uma palavra de apreço e de incentivo para quem não desiste e está sempre disponível para, resistindo, ir mais além.

Obrigado.

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