Mudem-se as estrelas!…

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António Fernandes Silva - colaborador Dão e Demo jornal digital

Por: António Fernandes Silva

Sinto as estrelas a tremer de medo e de frio nestas noites indecisas entre o Outono e o Inverno. Não sei se é o frio ou a escuridão da noite que as deixam lá em cima a piscar ou se alguma dúvida existencial sobre o seu encaixe e função no Universo as põe a tremer de medo.

A brevidade da escuridão obriga-nos a olhar sempre para o céu, antes de cerrar as janelas da comunicação com o mundo e de saudar aquela estrela que, todos os dias, espera pelo nosso adeus e nos responde com um ligeiro piscar de olhos comprometido e muito semelhante ao beijo da mãe, na sua última ronda, a aconchegar-nos a roupa, antes de dormir.

Parecem frias e abatidas as estrelas com que o céu se pinta.

Parece ter emagrecido o entusiasmo com que iluminavam os carreiros de quem andava  à ventura, nas noites escuras, ou as veredas do Pai Natal, a escorregar na neve, para ler as cartas e ouvir os segredos das crianças e as tossidelas roucas de quem se embrulha em cartões para sentir o beijo de estrelas benfazejas, que trilham rotas laterais de procura e entendimento, e a língua quente do fiel companheiro  que teima em não os deixar, sozinhos e abandonados, naquele desconforto.

Parecem, elas próprias, desconfiadas das promessas de que, algum dia, vai haver alteração de mentalidades e a criação de “novos céus e nova terra”.

As praças das cidades e aldeias enchem- se de luzes e adereços, a fixar os olhos e pensamentos nas montras e guloseimas, fazendo esquecer a limpeza das chaminés, o presépio e pinheirinho, que centravam os cuidados e preparativos da ceia e do encontro familiar.

Estas luzes, impedem de ver e de lembrar que, para além dos prédios e das chaminés, continua a haver estrelas que brilham e se vão deitar connosco, na tranquilidade dum Universo imenso, de que fazemos parte e andamos a esfaquear.

O encanto destas noites frias deixa-nos ficar mais tempo à janela a fixar a mesma estrela que nos desafia desde a infância e que parece vir pendurar-se à nossa porta para contar antigos segredos e revelar tudo o que sabe de nós e da nossa vida.

Aquele piscar distante e silencioso conta-nos histórias de mágoas e tradições, desgostos e esperanças, fraquezas e palpites, numa vontade cega de se chegar mais perto, sentar à lareira para se aquecer e confortar nas dúvidas e incertezas que nos acompanham, para reforçar o vigor do seu brilho sem esmorecer a arte de alimentar o nosso sonho de renovar o mundo em pequenos gestos.

Nestas conversas, ficamos a saber que muitas estrelas já foram intimadas a mudar de sítio. Para não verem o que, todos os dias, acontece na Terra, o desprezo a que estão sujeitos os humanos, as falcatruas que vão deixando os ricos cada vez mais ricos e os pobres sempre mais pobres e dependentes, as crianças mais tristes e chorosas, os velhos mais isolados a um canto.

Talvez a fraqueza do seu brilho ande baralhada e comprometida com o crescente carinho e vigilância dispensado aos animais de estimação e o esquecimento a que estão votados os idosos e crianças, os migrantes e sem abrigo, estas aldeias perdidas na serra.

As explorações espaciais ameaçam a distância e utilidade das estrelas, prometendo alterar o seu descanso e estatuto, se mantiverem a intermitência do seu brilho e a serenidade do seu olhar sobre a Terra sem provocar choques e mudanças.

Os sonhos, o luar e a luz das estrelas poderão integrar, em breve, novas exigências.

Antes que aconteça, rodem-se as estrelas e expurguem-se as ilusões, não vá o diabo tecê-las.

Mesmo à sorrelfa, é bom continuar a espreitar para aquele pirilampo que teima em furar as nuvens e alimentar sonhos e esperanças, antes que ele adormeça e nos obrigue a desistir de  sonhar com um mundo novo e diferente.

Talvez as estrelas não estejam a tremeluzir de medo. Elas são corajosas e sábias.

É apenas fumaça das geadas de inverno que há de passar.

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