Não matem os velhinhos

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Inês Pina: Colaboradora Dão e Demo

Por: Inês Pina

Sim, foi polémico o cartaz, mas não é o mote do texto! Aliás, as redes sociais tendem a fazer um julgamento imediatista e ditatorial sobre o qual devíamos refletir. No entanto, não é sobre isto que vamos falar. Talvez um dia!

A questão é: o quanto devemos debater um tema importante na sociedade? Sim estou a falar da eutanásia. Temática debatida na assembleia e não aprovada há umas semanas. Do que percebi, o país não estava de fato preparado. Temos, se calhar, de debater questões como dignidade e liberdade primeiro.

Este não pode ser, um não tema! Tem muitos prós e muitos contras que eu não negligencio, contudo faz-me confusão que se aborde esta temática de um ponto de vista político e não tanto de um ponto de vista humano.

Celebrar o “Não” da eutanásia é celebrar a nossa negligencia para com o sofrimento do outro. Algo muito típico na nossa era! Entendam: consigo perceber quem é contra, não consigo perceber o festejo. Pareceu um celebrar do sofrimento de quem a queria ter neste momento; aliás, o problema é esse: o distanciamento que temos do sofrimento alheio. Incomoda-nos a questão Síria, mas estando longe bebemos um copo e o tema morre. Estamos a fazer o mesmo com o sofrimento dos outros. Discutir a eutanásia passa por ouvir, na primeira pessoa, o testemunho de quem só queria ter uma boa morte – para quem não sabe, etimologicamente, eutanásia significa “morte boa”.

Há quem peça o referendo, mas acho perigoso os direitos humanos serem referendáveis porque é dar a uma maioria a possibilidade de decidir pela minoria. Compreendo, até certo ponto, as pessoas que são contra a despenalização da eutanásia, mas não lhes reconheço honestidade nos argumentos. Dizem que se pode vir a dar asas a homicídios, a pressões sobre os mais vulneráveis, usam crenças religiosas, os médicos falam no código deontológico…

Vamos lá ver o argumento Deus. Sim, Deus fica chateado é o único-que-dá-e-tira-a-vida, mas quando dá jeito pede-se o poder da medecina? Lembrem-se Deus quis que a morte de X no acidente rodoviário Y, foi a medicina que evitou o desfecho desenhado pelo Supremo!

Isso do homicídio deve ser bem explicado. A eutanásia, não é para ser uma LEI OBRIGATÓRIA. Estamos a falar de dar a opção à pessoa que sofre. Vou dizer devagar. Dar. Opção.

Os que são contra a eutanásia, por norma, são os mesmos que estão contra o aborto. Curioso que em Portugal, a lei do aborto tem sido um sucesso, com o número de abortos a diminuir ano após ano.

Um médico respeita alguém que por convicção religiosa não quer uma transfusão, mas não respeita alguém que diz que não quer sofrer?

Hoje sei que se estivesse a sofrer queria a eutanásia, amanhã não sei. O que sei é que queria ter a hipóteses de escolher o que fazer com a minha vida. Temos todo o direito de morrer com dignidade.

Lembro-me bem de alguém próximo que já vomitava os próprios órgãos de pedir dignidade, que não era justo definhar assim junto dos que amava. Que queria que guardassem outra imagem de si, não de um corpo consumido pela doença…

Podem ocorrer erros ou abusos? Claro que sim, o ser humano é perito em tornar coisas boas em más, mas isso tem de ser analisado caso a caso. A internet é uma coisa muito boa, mas também é usada para coisas muito más! Não é uma questão de preto e branco. Nitidamente parece é que estamos a adotar uma postura egoísta. Quem sou eu para dizer a alguém que sofre que tem de aguentar?

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