Não me temo de Castela, temo-me de Lisboa que o reino nos despovoa

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Por: Acácio Pinto

“Não me temo de Castela | D’onde guerra inda não soa, | Mas temo-me de Lisboa, | Que ao cheiro desta canela | O reino nos despovoa.”

Escreveu Sá de Miranda (1481-1558)

Trago como epígrafe a este artigo uns tão antigos quanto premonitórios versos de Sá Miranda, esse homem de leis e cultor da escrita, que viveu na época dos descobrimentos.

Como se vê, ontem, tal qual hoje, a voracidade dos poderes repete-se em defesa do centralismo. Para o interior só mesmo medidas, meramente, adjetivas.

Aliás, o esmagamento do interior está aí, há muitos anos. Não é uma façanha deste Governo, é uma gesta de um centralismo sem escrúpulos, alimentado pelo seu próprio método! É um ‘exército’ que não para de aumentar, à semelhança do que aconteceu com o combate à formiga, de que fala Italo Calvino no seu livro A formiga argentina.

Mas o leitmotiv para este artigo radicou em dois exemplos, recentes, que estão aí, na ordem do dia. O encerramento de lojas dos CTT e o ‘apagão’ da iluminação de nós na A24.

A este propósito os autarcas falaram e falaram bem! No primeiro caso com a apresentação de providências cautelares contra os CTT, por parte das CIM DouroViseu Dão Lafões, e um recado ao Governo pelo presidente de Penalva do Castelo e, no segundo, pela voz do presidente da câmara de Vila Real que em jeito de ironia perguntou por que razão não apagam também a iluminação dos nós na A1 ou nas áreas metropolitanas.

Importa aqui referir que tenho o primeiro-ministro, António Costa, como um genuíno defensor de uma efetiva descentralização. Os factos, porém, sucedem-se e contraditam tal seu escopo e os ventos da práxis política do sistema sopram inexoravelmente do quadrante adverso.

Ainda há quem sugira que tenhamos esperança e ainda há aqueles quem citam o mestre, de seu nome Aquilino, e referem que “alcança quem não cansa”.

Para mim, contudo, nesta matéria, a esperança está há muito na sala de cuidados intensivos e abundam, mesmo, aqueles que defendem a sua eutanásia.

Ganhará, inexoravelmente, a segunda se o poder continuar surdo e mudo aos gritos que se têm feito ouvir e se não ler os ensinamentos de várias catástrofes que nos têm assolado, de que o vórtice dos incêndios do ano anterior foi a “cereja negra” no topo do bolo.

Mais do que medidas avulsas e do que a criação de uma secretaria de estado – e aprecio a irreverência do novo secretário de estado para a valorização do interior, ele que foi um autarca dos territórios onde não cheira a canela – o tempo é de António Costa demonstrar que é sua vontade, intransigente, dar mais interior a Portugal.

E se essa for a sua opção, como desejo, o vencedor – mais do que António Costa e o Governo – será Portugal.

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