Naufragar não é afogar-se

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José Carreira - colaborador Dão e Demo.

Por: José Carreira

O filósofo Ortega y Gasset, para explicar o fracasso, recorria à metáfora do nadador em dificuldade:

“Naufragar não é afogar-se. O pobre humano, sentindo-se a submergir no abismo, agita os braços para manter-se à superfície. Esta agitação dos braços com que reage à possibilidade da sua perda… é já a salvação.”

Também nós, dirigentes e colaboradores das Instituições Particulares de Solidariedade Social, na última década, temos agitado os braços, com toda a força que temos para nos mantermos à tona, naufragarmos e não nos afogarmos.

A instituição que dirijo, em Viseu, Obras Sociais do Pessoal da CM e SM de Viseu, bem como tantas outras no território nacional, navega, há alguns anos, em mares revoltos e procura, com o esforço e dedicação dos seus colaboradores, fugir à tormenta do mar revolto e impiedoso.

Recordo Fernando Pessoa:

Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão rezaram!

Se, como disse Ortega y Gasset, tentar, com todas as forças, agitando os braços, já significa a salvação, tenho a certeza de que a maioria dos colaboradores das Obras Sociais estarão salvos, embora possam não estar a salvo de novas e imprevisíveis marés. Têm sido, em tempos difíceis, abnegados e lutam com todas as suas forças para que a instituição cumpra a sua missão e lhes possa ser feita justiça.

Foi curiosa a notícia de ontem do Jornal de Notícias – “Metade das crianças sem vagas nas creches”.

Segundo os dados oficiais, o sector social solidário conseguiu reforçar a oferta e o sector privado registou uma forte quebra (16.799 vagas a menos). Coloco duas questões:

1- Porque será que os portugueses recorrem menos ao sector privado?

2- Porque será que as instituições do sector social sentem o agudizar das dificuldades para garantir a sustentabilidade das respostas sociais vocacionadas para a infância?

A menor capacidade financeira das famílias faz com que optem por não utilizar os equipamentos privados e recorram aos equipamentos sociais, sendo a sua comparticipação de baixo valor, ainda que, em algumas situações, seja complementar ao valor atribuído em função dos protocolos de cooperação existentes que, em regra, não apoiam todas as crianças que frequentam as instituições.

A ameaça à sustentabilidade das creches é um problema transversal a todas as organizações, privadas ou solidárias, estando em causa o futuro das que estão apenas vocacionadas para dar apoio a crianças. Talvez valha a pena fazer o exercício de análise ao setor social e tentar perceber como tem resistido.

“Muitas IPSS, apesar da redução da procura por parte das famílias, evidente nas respostas sociais ligadas à infância, têm conseguido equilibrar as suas contas através das respostas sociais associadas à terceira idade.” (In Sustentabilidade das Instituições Particulares de Solidariedade Social em Portugal, 2014)

A instabilidade e imprevisibilidade das políticas públicas, associadas a mapeamentos e planeamentos desajustados, são letais para o planeamento estratégico das organizações.

Dou como exemplo, que nos afetou indelevelmente, o caso da alteração do enquadramento legal das Actividades de tempos livres (CATL). As políticas públicas criaram incentivos para alargarmos a oferta de CATL para os alunos das escolas públicas, aos quais respondemos positivamente. Pouco tempo depois a política mudou e passaram a ser as escolas a disponibilizar essa oferta, cobrando valores simbólicos às famílias e levando ao desvio de muitas crianças dos CATL das IPSS para as escolas. A redução inesperada do número de utentes resultou num duro golpe. Tentámos “esbracejar”, não despedir pessoas, apoiar as crianças que não encontraram nas escolas a resposta ajustada às suas necessidades…

O ensino Pré-escolar parece fazer um caminho similar ao do CATL, a diminuição do número de crianças tem-se acentuado, ano após ano…

Numa rápida consulta à Wikipédia, obtemos uma definição para Náufrago: é uma pessoa abandonada à deriva ou em terra firme. (…) As provisões e recursos disponíveis ao náufrago podem permitir que ele sobreviva na ilha até que alguém apareça para salvá-lo. Entretanto, tais missões de resgate podem jamais acontecer caso não se saiba se a pessoa está desaparecida, se ainda está viva, ou esteja em local ignorado.”

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