No 25 de abril, em Sernancelhe, apelou-se à regionalização

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O Interior tem potencialidades que o País deve reconhecer e valorizar, o Poder Local tem de ser respeitado e o 25 de abril só se cumprirá verdadeiramente quando as distâncias entre litoral e interior forem esbatidas. Foi esta a ideia dominante das comemorações do 25 de abril em Sernancelhe, em que o Município agraciou com a Medalha de Honra o antigo Ministro da Agricultura, Arlindo Cunha, a Associação de Caça e Pesca de Sernancelhe e a Cooperativa Agrícola do Távora. O programa evocativo dos 45 anos do dia da Liberdade ficou cumprido com o concerto, no Expo Salão, de Toy e os amigos Adelaide Ferreira, Dany Silva e Rui Pregal da Cunha.

Num dia marcado pela chuva e muito frio, a cerimónia decorreu nos Paços do Concelho, tendo como primeiro momento o hastear da Bandeira Nacional, do Município e da União Europeia, ato cumprido pelos homenageados, enquanto a Banda Musical 81 de Ferreirim interpretou o Hino Nacional.

À semelhança do que acontece há cerca de uma década, o Município de Sernancelhe homenageou neste dia pessoas e instituições que deram e dão um contributo relevante ao desenvolvimento do Concelho, são agentes de progresso e, pelos seus feitos, merecem ser distinguidos e inscritos na história concelhia. Depois de terem sido condecoradas figuras locais e nacionais da literatura, do ensino, militares, políticos, personalidades da Igreja, associações, empresas, escolas, na edição do 25 de abril deste ano foi reconhecido com a Medalha de Honra, Arlindo Cunha, que se destacou nas funções de Secretário de Estado da Agricultura, Ministro da Agricultura, Pescas e Alimentação, Ministro das Cidades, Ordenamento do Território e Ambiente, eurodeputado, vice-presidente da Comissão Parlamentar da Agricultura, Presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte, professor e atualmente como Presidente da Comissão Vitivinícola do Dão.

A ligação a Sernancelhe acontece desde 1992, quando nas funções de Ministro da Agricultura, foi determinante na primeira edição da Festa da Castanha, evento que desde essa altura ganhou projeção nacional. Foi sempre ativo no apoio a iniciativas educativas e literárias no Concelho, apadrinhou a caça e pesca como essenciais na valorização do turismo cinegético neste território e certificou vários projetos agrícolas no Concelho, muito concorrendo para a valorização do setor agrícola e para o impulso das agroindústrias concelhias.

No momento da entrega da Medalha de Honra do Município, Arlindo Cunha não escondeu a sua satisfação pelo reconhecimento que Sernancelhe lhe presta, lembrando que esta terra tem sido exemplar no seu percurso de desenvolvimento e é assinalável que continue empenhada em crescer com qualidade, num tempo em que o fosso entre litoral e interior é cada vez mais expressivo e o País parece condenar à extinção mais de dois terços de Portugal. A causa, lembrou o antigo governante, reside em vários fatores conjunturais que têm colocado Portugal na cauda da Europa em matéria de descentralização de poder, mas também na Constituição da República que continua por cumprir na plenitude uma vez que as regiões nunca foram criadas.

Marcante para o interior de Portugal e para Sernancelhe em particular é a agricultura, setor que seria igualmente homenageado com a atribuição da Medalha de Mérito à Cooperativa Agrícola do Távora. A instituição, que cumpre 64 anos, e é presidida pelo sernancelhense João Silva, tem desenvolvido um trabalho de extrema importância na valorização dos vinhos da Região Demarcada Távora-Varosa e na maçã de altitude, marcas de valor desta região do Douro Sul.

Graças ao papel da Cooperativa Agrícola do Távora, hoje o vinho e as frutas são entendidos como rentáveis, como oportunidades económicas, também para jovens empresários, que plantam, modernizam, produzem e fixam-se no território. A dimensão económica é refletida no equilíbrio social que promove no nosso Concelho, sendo frequentemente motivo de orgulho por serem desta terra um volume significativo das uvas que geram vinhos premiados no País e no Mundo. A associação dos produtos vitivinícolas a Aquilino Ribeiro tem sido igualmente importante, tanto na promoção de Sernancelhe, como para a Cooperativa, pois conseguiu posicionar-se no mercado nacional e internacional com marcas robustas, suportadas na história e na cultura da região e do País, de que Aquilino Ribeiro é referência.

No momento de receber a distinção municipal, João Silva agradeceu o gesto de Sernancelhe em reconhecer a agricultura e o trabalho dos agricultores para o engrandecimento da região. Demonstrou a dimensão da Cooperativa, falou da satisfação pelos prémios nacionais e internacionais arrecadados e pela ligação a Aquilino Ribeiro e à obra do escritor, que dá nome a vinhos como Terras do Demo, Malhadinhas e Aquilinos.

E porque este território depende, cada vez mais, do turismo, este ano o Município entendeu conceder a Medalha de Mérito à Associação de Caça e Pesca, criada em 1988, pelo trabalho que tem desenvolvido na promoção das excecionais condições para a prática do turismo cinegético no Concelho e também pelo apoio constante aos agricultores no controle de espécies predadoras que são ameaças às culturas.

Com cerca de 200 sócios, de distritos como Lisboa, Porto, Aveiro, Coimbra, Vila Real e Guarda, a Associação de Caça e Pesca de Sernancelhe é hoje um dos membros mais dinâmicos da Federação de Caça e Pesca do Distrito de Viseu, de cuja Direção faz também parte. Está ligada à criação da Festa da Castanha, tendo deste então desenvolvido iniciativas de âmbito recreativo, cultural e turístico, garantindo, ao mesmo tempo, o fomento e conservação da fauna cinegética e piscatória, a exploração, manutenção e conservação de zonas de caça e pesca, essenciais à preservação ambiental e sustentabilidade dos recursos naturais do Concelho. É a Associação gestora da Zona de Caça Municipal e da Pesca no Rio Távora.

César Lourenço, Presidente da Associação de Caça e Pesca, falou emotivamente da atividade que desenvolve aquela agremiação, lembrando que o turismo cinegético e a promoção das qualidades ambientais do Concelho têm sido o objetivo de todos membros. Desmistificou a conotação negativa que, por vezes, é conferida à caça, defendendo que é uma forma de ajudar a agricultura, manter a ocupação de espaços rurais abandonados, controlar e repor espécies e fomentar a atividade turística no território.

Carlos Silva Santiago, Presidente da Câmara Municipal, interveio para demostrar o seu agradecimento a todos os homenageados. Lembrou os percursos que os ligam ao Concelho e explicou que uma terra que tem pessoas e instituições com dinamismo e com perspetiva construtiva é uma terra de futuro.

Depois demonstrou todo o seu desencanto com a realidade nacional, nomeadamente as desigualdades entre litoral e interior, a luta pela sobrevivência que se trava neste território, o papel cada vez mais reduzido que o Poder Central confere aos municípios, o centralismo e o alheamento do governo face às pessoas.

Criticou, por isso, o modelo de competências recentemente ensaiado pelo Governo: “Veja-se o panfleto onde se divulga o verdadeiro teatro da transferência de competências para os Municípios que, depois de tanta propaganda dos efeitos milagrosos de um certo simplex anunciado – que dava poderes às câmaras em matérias como educação, saúde, cultura, entre outras, culminou em nada. Afinal o que era descentralizado não era uma descentralização efetiva, mas sim uma ficcionada delegação de serviços, como se os presidentes de câmara e as autarquias não passassem de meros serviçais do poder central”.

Por isso, defendeu ser a altura de assumir na agenda política nacional e local uma verdadeira regionalização, pois só dessa forma os concelhos do interior de Portugal poderão almejar convergir com o resto do País.

José Agostinho Aguiar, Presidente da Assembleia Municipal, encerrou as intervenções, lembrando o papel central do 25 de abril no Portugal democrático. Reconhecendo que a liberdade é uma conquista mas também uma responsabilidade que todos devem cumprir, disse que os homenageados de hoje são um exemplo de como devem ser os municípios: reconhecidos a todos quantos ajudam na sua construção.

As comemorações do 25 de abril ocuparam toda a manhã, e ficaram concluídas com o segundo momento, no Expo Salão, onde um milhar de pessoas assistiu a um concerto original de Toy, que chamou ao palco os amigos Dany Silva, Adelaide Ferreira e Rui Pregal da Cunha.

Fonte: CMS

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