[Cinema] No Intenso Agora (2017)*

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**** Recomenda-se

No Intenso Agora (2017) | Realizado por João Moreira Salles | 127min.

Por: José Pedro Pinto

Se a vida não é aqui, é bom que vá havendo sítios onde ela pareça mais perto.

Se a vida não é aqui, é bom que vá havendo sítios onde ela pareça mais perto. No sábado à noite, no cinema Ícaro – reaberto por uns dias pelo Desobedoc – senti uma vozinha a dizer “morno”. Alguns filmes têm a força particular de me encaminharem a pensamentos dos quais me tinha esquecido, que se transformam em novos pensamentos só por ter passado tempo e eu ser outro eu. Foi o caso de No Intenso Agora.

João Moreira Salles usa registos amadores, documentais e jornalísticos para montar um filme sobre as revoluções/ revoltas dos anos 60 – a Revolução Cultural chinesa de 1966, a Primavera de Praga, e o Maio de 68. Acompanhadas das suas narrações sociológicas, pessoais e poéticas, da música nostálgica de Rodrigo Leão, e do pontual silêncio, essas imagens ganham uma lógica forte e misteriosa – de tão atentas às especificidades humanas da época, ganham uma universalidade transversal à nossa época.

No Intenso Agora foi um filme que vivi mais do que um filme que vi. Conta a história de febres de mudança, de euforia de sair à rua e contrariar as convenções, revoluções que chegam e passam tal como passa a febre – porque é incómoda, e o corpo naturalmente procura um estado cómodo. Passou-se o mesmo comigo a ver o filme: acabado, saí à rua com vontade de arrancar os paralelos do passeio do Zé Pedro, mas o ar frio da noite e o quente da cama depressa regularizaram a situação. Como na frase de Cohn-Bendit, porta-voz do movimento estudantil de 68: por uns momentos adivinha-se qualquer coisa, não se sabe bem o que é e desaparece imediatamente, mas é suficiente para motivar a procura.

*Crítica originalmente publicada na edição de 11 de Maio do Jornal do Centro.

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