O clima, uma causa chique e cool!

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António Fonseca | Colaborador Dão e Demo

Por: António Fonseca (Lausanne – Suiça)

Naturalmente, o clima é uma causa sagrada e urgente, o futuro do planeta diz respeito a todos nós, sem exceção. É uma causa a defender com toda a nossa força. Uma causa de um mundo vivo, valorizando-o como sítio de passagem que é.

Mas é interessante notar que, no mercado das “causas”, algumas são mais chiques que outras e um tudo-nada polémicas.

O clima é, portanto, o favorito de filantropos e empresas não muito expostas, das estrelas do ‘showbiz’ e os políticos adoram e os jovens acham cool…

O clima está na moda. Há dez anos era o buraco de ozono no polo norte (depois de trocarem todos os aparelhos que utilizavam cfc e filtros nos escapes de automóvel obrigando ao seu consumo e dando milhões a certas empresas, as televisões nunca mais falaram nisso) e hoje o problema é o carbono. Só que as causas menos bonitas e um pouco mais confusas são aquelas de que nenhum telejornal faz a abertura e para as quais nós arranjamos uma desculpa:

Como guerras (onde a OTAN está envolvida) e crimes contra a humanidade que fazem milhões de mortes (… geopolítica, não percebo nada disso);

Como a extrema pobreza que não desapareceu, antes pelo contrário (… é triste mas é a vida, eu até dou sempre nos peditórios);

Como o envio para África dos carros muito poluentes que somos obrigados a trocar devido às normas europeias (… temos que ajudar, eles precisam, coitados);

Como o problema da exploração de coltan pelas crianças do Congo (… tenho telemóvel, mas paguei caro);

Como o aumento do poder dos lobbies, inclusive em Portugal (… poof, isso é muito antissistema);

Como o empobrecimento dos trabalhadores, provocando tensões sociais (…demasiado ‘foleiro’, coisa de coletes amarelos);

Como pedir responsabilidades aos políticos no poder (… os outros antes fizeram pior ;

Como os excessos da imigração (… ui, extrema direita não muito recomendável);

Como evasão fiscal e especulação, inclusive sobre alimentos (mmm … demasiado anticapitalista);

Como a proteção de produtos locais (… demasiado pró Trump) ;

Como a corrupção no futebol (… não, o meu clube é honesto, é só inveja) ;

Como a duração de vida programada dos objetos puxando ao superconsumo, que desperdiça toneladas antes de poluir (… decréscimo económico, jamais);

Como o fim das tradições religiosas e valores espirituais acatando outras vindas de longe (ooh … isso é retrógrado, sectário, islamofóbico);

Em suma, uma boa causa deve permanecer limpa, chique, gentil, não incomodar ninguém e sobretudo passar na televisão. O planeta continuará amanhã a dar a volta ao sol, já eu e tu estaremos talvez a comer a salada pelo lado da raiz.

Tchin-tchin, à vossa!

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