O eclipse.

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António Fernandes Silva - colaborador Dão e Demo jornal digital

Por: António Fernandes Silva

Perante a brevidade e fraca consistência da vida humana, vamos dizendo que esta vida são dois dias. E, mesmo nesses dois dias, não conseguimos agarrar os melhores momentos que ela  nos vai proporcionando ao longo da viagem. Fica-nos sempre o sabor agridoce que obriga a cozinhar saudade com esperança, numa conclusão de que “o que é bom passa depressa”.

As pessoas mais indiferentes a esta corrida desenfreada acrescentam a alegria dos folguedos do Carnaval, afirmando, no seu positivismo, que, se esta vida são dois dias, o Carnaval são três.

E a lado sério e, porventura, mais austero e preocupado dos dias passa para segundo plano, abrindo alas aos epicuristas e aos prazeres imediatos que se podem colher na correnteza de cada dia, pelo que vale mais aproveitar o mais favorável e imediato do que pensar no dia de amanhã. Amanhã é outro dia e logo se verá como se vai resolver.

Esta teoria e conceito de vida domina a espinha dorsal da conduta de uma sociedade que se acostumou a conviver, pacificamente, com o adiamento de soluções, como quem espera que seja o tempo a resolver tudo.

O dicionário mental acredita mais na oportunidade das prescrições do que na validade das obrigações, acrescentando-lhe novas virtudes aportadas nas dilações, derrogações, preclusões e tantos outros ãos e ões de que estão cheias as redes e meandros da sociedade de que apenas o peixe miúdo não consegue escapar.  

Desde a fundação da nacionalidade, andamos embrulhados em dívidas e créditos extremamente pesados, que se vão disfarçando em novas dívidas para iludir orçamentos e estatísticas e afagar a vaidade de quem nunca aprendeu a fazer contas. Ninguém se interessa em liquidar a dívida geral e chega-se a dizer que “as dívidas são para se ir pagando”. Porque todos sabem que, no contexto actual, o diabo da dívida queima tudo à sua volta. E, assim, o melhor é esperar que, como em todos os fogos, ela se extinga por si mesma sem deixar rasto.

Depois, ninguém vai saber quem ficou a lucrar ou a dever. Quem ganhou ou perdeu.

As festas que vão acontecendo ao longo do ano aguentam o significado e mensagem durante algum tempo. Depois, é sempre o Carnaval  a estar por cima.

É sempre tempo de nos coroarmos de rosas e desfrutarmos os encantos da vida de cada dia.

Há de chegar a Primavera e as suas flores, o Verão e a praia, as romarias, os dias longos que se emendam nas noites quentes.

Em todos os momentos, o espírito de Carnaval domina e libertina, programa e orienta.

Mesmo se o calendário e o tempo frio recomendam contenção e algum recato, ficam desafios de outras paragens para se despirem regras e preconceitos e deixar correr o marfim, até quarta feira. Depois, alguém virá fechar a porta, dizendo que as cinzas cheiram a esturro.

A ligeireza com que se aborda tudo, deixa espaço para a verdade relativa e opinião de cada um sem que se consiga fundar o conceito de importante e fundamental sobre nada. As razões fortes para acreditar que o dia de hoje é uma ligação entre o de ontem e o de amanhã e que, por isso, importa sabê-lo viver, caíram por terra. Tudo é hoje e já!

Sem ligações nem direcção, sem perspectivas de futuro, importaria descer à realidade e definir um modelo de perfeição para a vida do “agora”.

Mas cada um prefere viver a vida à sua maneira, entre os dois e os três dias de folga que nos são dados com ou sem Carnaval.

Saber viver, mais que uma atitude pessoal, é uma arte e a ciência do momento que passa.

Fungamos pelas esquinas, lamentando o tempo que passa, sem olhar para além da nossa rua e ver a epidemia que passa na avenida. O sol há de voltar e trazer outra disposição.

Pode ser que este eclipse de ideias e atitudes, onde domina a fraqueza das sombras e dúvidas, não deixe marcas.

Como após todos os eclipses da História, espera-se que haja luz. Luz clara e consistente que acabe com este clima de vidas desenhadas em fitas de cinema.

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