O equinócio

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António Fernandes Silva

Por: António Fernandes Silva

O olhar mortiço do sol em fim de estação convida a dar uma volta ao guarda-roupa para não sermos apanhados de surpresa pelas noites frescas ou manhãs arrependidas que não assumiram, ainda, a mudança de ciclo.

Mas a cartilha da Natureza, silenciosa e calma, vai soletrando caminhos de igualdade e equilíbrio entre os elementos do universo, repondo a simplicidade e o valor de cada um.

Ainda há dias, o sol, numa arrogância louca, nos fustigava a cabeça, impondo coberturas e recato para escapar às suas gargalhadas de nos ver a suar em bica. Dá, agora, sinais de abrandamento e tolerância, sujeitando-se à regra da alternância do calendário da vida.

O Equinócio vem ditar e definir regras comuns, iguais para todos, dizendo ao dia e ao sol que eles não são mais importantes, para a vida na Terra, que a noite e a ternura dos dias amenos que aí vêm.

O dia e a noite têm direito às mesmas 12 horas. Nem uma nem outro se podem arrogar mais competência ou virtude. Nenhum pode soar a trombeta mais alto que o outro. Têm o mesmo tempo de antena e a mesma deferência, nos bastidores, nesta luta contra o tempo.

Duas vezes por ano, a esfera celeste mostra-nos a justiça e a igualdade do universo.

O nascer do sol e o seu ocaso são, apenas, um breve instante de transmissão de mensagens e cedências na vida que se cruza e equilibra nos pratos da balança, em oscilações constantes. Ora risonha e fagueira, ora escura e triste como um beco sem saída.

Às cavalgadas fulgurantes do sol de Verão segue-se a tranquilidade do Outono e os rigores do Inverno que há de morrer nos braços da Primavera, quando a esperança em melhores dias se volta a acender e renovar. E nunca se dirá que uma estação é melhor que outra. São, apenas, diferentes. Cada uma com a sua marca própria. Todas renovam a força do planeta.

Cada tempo tem o seu decurso e o seu encanto. Gostamos mais de uns do que de outros, mas a sua rotação e alternância diz-nos que todos são importantes e necessários, porque a vida recomeça todos os dias e cada dia tem a sua própria exigência.

A velocidade deste carrossel obriga à troca oportuna dos condutores da carruagem e à substituição do material circulante. Os coches sem manutenção vão perdendo capacidade de acompanhar esta corrida, prestando mau serviço aos passageiros. E, por muito capaz que se julgue o cocheiro, o tempo não para nem admite falhas ou distracções. É salutar uma paragem para descanso, arejamento e revisão do percurso da viagem.

A simples troca de cadeiras, no termo da corrida, mais parece o prato giratório da roleta, com bolas viciadas e trunfos na manga, onde as vazas e prémios saem sempre à casa.

Os ácaros da inércia costumam aninhar-se nos assentos pouco arejados e em lugares aquecidos muito tempo pelas mesmas pessoas.

Também por isso, porque é breve e fugidio, o equinócio merece aplausos. Cumpre a sua função, abrindo portas a tempos diferentes, e vai-se embora pelo próprio pé, envolvido no abraço da lua nova, sem querer agarrar-se e dominar os dias, meses e anos seguintes.

Fica-nos o seu exemplo de integridade e isenção. Apesar dos seus gostos, amizades e preferências, perfeitamente legítimas, consegue repartir, sem fingimento, o dia e a noite em fatias rigorosamente iguais, dando-lhes o mesmo tratamento e atenção.

Queremos todos os dias um equinócio assim. Que nos respeite e se saiba respeitar.

20.09.2017

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