O meu Dia de Portugal foi na Rota do Barrocal.

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Por: Acácio Pinto

O dia era de Portugal. A chuva não sei. Só sei que caiu sem dó e encharcou-nos sem piedade.

Eram 10 os quilómetros que tínhamos pela frente, depois da capela de São Bento e da Santa Luzia, em Rãs, ficar atrás.

Falo, pois claro, da rota do Barrocal. Uma rota que me fez regressar. Regressar a tempos pretéritos. A maioria perfeitos. Mas quantos, também, imperfeitos.

Partimos rio abaixo. Rio a que chamam de Sátão, apesar de estarmos em Rãs. Fila indiana. Seixal, Amarais, Deguedinha. Enfim, topónimos velhos como as pedras dos muros. Porém, sempre jovens para significarem de novo todos aqueles ontens que nos ressuscitam os meninos que fomos.

Fiquei triste. As macieiras do bravo já não estavam à beira do caminho. Nem aquela que dava maçãs no São João. Eram ácidas. Mas com que prazer as trincava até debotar os dentes!

Mais à frente, Roinisco, Bouças. Descida íngreme, a passar ao lado da mata da Igreja de que tantas vezes ouvi falar ao padre Eduardo.

Rota do Barrocal 10.06.2018 (Organização: União Freguesias Romãs, Decermilo, Vila Longa) [Foto: Dão e Demo]
A água, essa cantava em todos os regatos, serra abaixo. E subia, subia cada vez mais pelas calças acima. O guarda-chuva só fazia o que podia. Lá ia mantendo o pensamento enxuto.

Mas se até ao Carvalhal todos os santos ajudaram, agora é que iam ser elas.

A subida estava ali à frente. Alcantilada. Qual parede de escalada até ao Barrocal.

(E pensarmos que aquele foi o caminho dos mortos! Não sei se, uma vez que fosse, ali não tombaram algum!)

A boca estava toda aberta e a língua tinha um palmo de fora. Estava para suplicar pela ajuda divina quando surgiu o plaino do Barrocal. Lá recompus a máquina com uma água, breve, distribuída pela organização e ala que se faz tarde.

A segunda parte da encosta estava à espera. Do Barrocal até à Romãs, com a Paradaia ali bem ao lado. O padre Albano chamava à Paradaia um colossal zigurate onde se sustentavam os jardins da Babilónia.

O trilho, qual caminho!, sinuoso, desenvolvia-se entre maciços graníticos polidos pelo tempo e pelos pés, calejados pelo trabalho, dantes. Os de hoje não. Os pés de hoje são “calejados” pelo running e pelo trail.

A meia encosta uma placa com uma seta indicava: Serra da Estrela. Mas, maldito nevoeiro, se até ali não vimos sol, a Estrela também fica para a próxima.

Continuámos. Ofegantes. Bofes de fora. Mas chegámos à Romãs. A coisa agora iria melhorar.

Até aos Tojais foi sempre a descer, com muitas escorregadelas. Nenhuma, porém, a pedir assistência. E lá abaixo, próximo do rio Sátão, na laje, não consegui encontrar as pegadas de nossa senhora. Lembro-me delas de antigamente. Quando ali passava, ao domingo, a caminho da missa.

O caminho agora, mais aplanado, alargou um pouco. Raposeira. Douro Calvo. Pelourinho de Gulfar.

Mas a fila indiana voltou logo a seguir. É que finalmente apareceram as quelhas.  Um labirinto, até chegar ao Povo, em Rãs.

E pronto. A meta estava à vista. Agora eram dez quilómetros atrás e à frente, de novo, a capela de São Bento e da Milagrosa Santa Luzia.

Sim, foi Dia de Portugal, dia de rever terras bem portuguesas!

Parabéns à União de Freguesias de Romãs, Decermilo e Vila Longa e aos seus colaboradores por esta magnífica Rota do Barrocal.

Viva Portugal!

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