O último bastião

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António Fernandes Silva - colaborador Dão e Demo jornal digital

Por: António Fernandes Silva

Desde há muito que a história nos diz que a última batalha perdida por qualquer exército, antes da capitulação, é a da traição dentro das próprias fileiras.

Os nossos avós não chegavam a esse ponto. Antecipavam a derrota, dizendo que a última coisa perdida por qualquer pessoa, povo ou nação é a vergonha. Depois é o descalabro.

Na simplicidade da sua linguagem e na nobreza dos seus sentimentos, a perda da vergonha implica a morte do brio e da dignidade, da honra e do respeito, do cavalheirismo e nobreza de caráter. Tudo isso alíneas da traição. Depois, tudo pode acontecer.

A traição passa a moeda corrente, o ridículo torna-se companheiro de jornada e a falta de valores pessoais e coletivos pinta as portas do castelo e desfralda-se nas janelas e ameias do povoado, até que se abatam todas as defesas.

Para ninguém ficar corado com figuras e atitudes que fariam embaraçar os pimentos, amesquinha-se o recato e a verticalidade de quem sabe orientar-se pela própria cabeça e escancaram-se os portões da libertinagem, deixando escorrer o livre arbítrio, onde tudo se pode fazer, dizer e acontecer, numa verdadeira e autêntica república das bananas.

E a pouca vergonha faz perder o equilíbrio e o sentido do dever e da justiça, numa sociedade onde ninguém se respeita nem leva a sério. Porque as próprias palavras e a linguagem vertical do sim-sim, não-não perderam uso e aplicação, na vida de cada dia.

Em nome da liberdade, perde-se a autoridade legítima de quem tem obrigação de mandar e manter a ordem e o respeito, deixando apunhalar a solidariedade.

Em nome da igualdade, ninguém assume as próprias responsabilidades, esperando que sejam outros ou o futuro a resolver o que nos diz respeito, deixando o mundo girar em roda livre.

Em nome da fraternidade, ficamos órfãos de caminhos seguros, de valores e esperança, de palavras e exemplos, de mestres, famílias e instituições em que se possa confiar.

E o mundo feliz, de paz e confiança e de um lugar para todos, vai ficando cada vez mais longe.

E, no entanto, esse mundo depende, como sempre dependeu, de pequenos gestos e decisões, do empenho e desempenho de cada um.

Olhando à volta, para os desvios generalizados de comportamentos, vemos que tudo se resume e começa no abandono em que navega este barco.

Bastaria um simples pingo de vergonha – daquele brio antigo dos nossos egrégios avós – apenas um, para o fazer retomar a rota segura.

Mas é mais fácil assobiar para o lado e apoiar escolas e orquestras de assobio e bater palmas aos seus concertos. E organizar comissões de protecção a tudo o que, de antemão, sabemos que está fragilizado ou em vias de extinção. E dar subsídios para manter ilusões.

As tragédias e desvios começam aí.

Há gerações sucessivas de crianças e adolescentes que foram perdendo a companhia e orientação dos pais. Há regras de vida que não se aprendem nos manuais escolares. Transmitem-se pelo exemplo, acompanhado de palavras que só a família sabe dizer.

Essas gerações sucessivas são os pais de hoje, num barco à deriva.

Simpáticos, companheiros, alheios e distantes da sua responsabilidade de educar e saber ocupar o seu lugar e função, quase sempre incapazes de ver e ouvir os anseios dos filhos, quase sempre incapazes de estar presentes ou saber por onde eles andam.

Há muito que se terá finado o último moicano capaz de educar novas gerações com regras e valores. Há muito que andamos órfãos de ideais e de esperança, capazes de alimentar o dia a dia da vida e desanuviar este horizonte de tragédias e desgraças.

Não se vive do passado nem se podem culpar os cravos de Abril ou as rosas de Maio.

São os tempos de outro tempo.

Mas o baluarte da dignidade e do respeito por todos, esse último bastião do castelo em ruínas, é um jardim que exige tratamento, de cima a baixo, para voltar a florir.

Há muito que jardinar!…

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