O vosso ordenado dá para comprar um kilo de frango?

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Inês Pina: Colaboradora Dão e Demo

Por: Inês Pina

Reclamamos do preço dos combustíveis, certo? Mas vamos abastecendo, quanto muito tentamos ir a pé nas curtas distâncias para poupar. Conseguimos fazer compras no supermercado, certo? No entanto, há quem não consiga!

Todos temos visto a crise na Venezuela. Aquele sem fim de protestos e todo um conjunto de vidas reféns de uma forte crise económica. Vemos e lamentamos. Seguimos com a nossa vida. Ainda por cima, Portugal vive no seu auge! No geral é assim que fazemos com os dramas dos outros países.

Na Venezuela temos um problema político. E custa muito assimilar isto. Como é que um governo se permite a tal coisa?

Na Venezuela, governo e oposição parecem viver em permanente enfrentamento, mas essa nova onda de protestos tem uma data inicial: 31 de março de 2016. Dois dias antes dessa data, o Tribunal Supremo de Justiça venezuelano – visto pela oposição como aliado do governo de Maduro – emitiu uma sentença assumindo as funções da Assembleia Nacional, onde a oposição tem maioria, enquanto o Legislativo estivesse “em desacato”.

Quando essa decisão do TSJ venezuelano veio a público, os opositores a Maduro não hesitaram em classificá-la de “golpe de Estado”. Deu-se início a uma mobilização que nem mesmo o recuo da alta corte ao reverter a própria sentença foi capaz de conter. As pessoas foram para as ruas e os protestos começaram.

Os problemas começaram a suceder-se. Uma espécie de bola de neve.

Há na Venezuela uma prolongada crise econômica, que colocou a maioria dos venezuelanos numa situação muito pior que a vivenciada na época dos primeiros protestos de 2014.

A queda dos preços do petróleo – que representa aproximadamente 96% do rendimento do país – tem reduzido ainda mais os recursos do Estado e agravado ainda mais a escassez de alimentos e produtos de primeira necessidade.

Isso gerou um desabastecimento quase crônico que adicionando à maior inflação do mundo, fez com que grande parte da população tenha problemas para conseguir comida. Os venezuelanos não ganham ordenado que chegue para um kilo de carne!

Além da crise, há uma intensa disputa política. A Venezuela está dividida entre os chamados chavistas – como são conhecidos os simpatizantes das políticas socialistas do ex-presidente Hugo Chávez -, e os opositores, que esperam o fim dos 18 anos de poder do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV).

Depois da morte de Chávez, em 2013, Nicolás Maduro, também integrante do PSUV, foi eleito presidente com a promessa de dar continuidade às políticas do antecessor.

O que nós vemos é um país a definhar. Hospitais com zero recursos, população que não ganha o suficiente para as compras essenciais. Debandada em massa.

Um país é como uma casa, temos de nos sentir bem. Quem quer governar tem de perceber que tem de gerir o bem-estar dessa casa. Para que serve o poder da governação se não cumprimos o seu propósito? Será o ser humano de tal ordem ambicioso ao ponto de deixar agudizar o seu semelhante por causa de uns bolívares? Se a mim me doí e não tenho responsabilidade direta, imagino se tivesse?

Agora, uma questão que muito me atormenta. Quem deve intervir?

Quando vejo imagens de povos que sofrem, aponto logo o dedo à cobardia europeia, dos EUA ou da ONU. E penso: como assim, não fazem nada?

Esta é uma balança muito difícil de equilibrar.

Fui acompanhando intervenções no Iraque e Afeganistão e a ideia com que fico é que a intervenção estrangeira nem sempre é benéfica para os países. Em primeiro raramente há um entendimento daquela cultura. Em segundo há pouco respeito pelas iniciativas de quem lá vive. Dá-se a atitude “nós é que sabemos, apague isso tudo”. Em terceiro acredito que as verdadeiras mudanças são as que vêm de dentro.

Assim sendo, que se deve fazer. Intervir? Não intervir?

As intervenções são sempre cheias de segundas intenções, raramente são genuínas. Raramente têm cunho meramente humanitário. A questão é que os nossos semelhantes estão a sofrer! Já devíamos ter aprendido com as gerações passadas que não devemos deixar milhares a sofrer nas mãos de fanáticos pelo poder.

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