Olhos e ouvidos.

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António Fernandes Silva - colaborador Dão e Demo jornal digital

Por: António Fernandes Silva

Faria bem, de vez em quando, regressar à leitura dos sermões do P.António Vieira.

Para além da perfeição da sua escrita e oratória, as observações e conselhos continuam na ordem do dia, quando refere o contexto social dos tempos.

No sermão aos peixes, parece estarmos a ver o retrato fiel dos nossos dias.

A corrupção, a pobreza e a desigualdade entre pessoas e países, a exploração dos mais fracos envergonham a dignidade do ser humano e continuam a bater mais forte que os sinos da torre ou as ondas do mar.

No entanto, a defesa dos direitos fundamentais continua pendurada na corda do sino, como o vento que assobia, mas não agita as águas nem obriga os poderosos a repartir, de forma mais justa, a riqueza e os bens que a terra produz.

A privação crónica de recursos espalha-se como uma nuvem negra que atinge cada vez mais povos e nações, ao mesmo tempo que a riqueza se concentra, na razão inversa, em menor número de pessoas, cada dia mais ricas.

Como no sermão, os homens agem como feras, comendo os mais pequenos e reduzindo os mais fracos à condição de escravos e dependentes.

Ter olhos e ouvidos e boca para denunciar não incomoda nem mexe com os poderosos.

Porque o espírito corporativo manda olhar para o umbigo e defender, antes e acima de tudo, o próprio interesse e os cordões da bolsa.

Porque com um rebuçado se adoça a boca e calam exigências. Porque os peixes gostam de circular nas águas do poder, parecendo-lhe as mais limpas e seguras.

O populismo crescente e os discursos vesgos e optimistas disfarçam a nudez da realidade.

O modelo da sociedade que temos faz-nos sonhar com vantagens que não existem.

O apregoado crescimento não gera mais riqueza e melhor distribuição. Está a gerar mais ricos e mais desigualdade. E ninguém abre os olhos para corrigir os erros da trajectória.

Ao contrário do que se diz, não se vê o emprego a crescer, porque a precariedade laboral sobe assustadoramente. Emprego por um mês ou meio ano não se pode chamar emprego. É, simplesmente, engano e precariedade a abrir caminho ao desespero e fatalismo.

Os dois milhões e meio de portugueses em risco de pobreza e os 4.000 cidadãos sem abrigo  castigam-nos com a verdade e obrigam-nos a olhar para as ruas da nossa terra.

Ainda não percebemos que a pobreza, a discriminação e a desigualdade estão a fazer germinar revoltas de consequências imprevisíveis

Mais que passeios e programas de diversão, é urgente criar condições de vida e de dignidade para todos. Nem nos podemos queixar de falta de gente para o fazer, nos lugares de decisão.

Para atenuar os efeitos do desespero e acabar com o populismo e as colagens ao poder, temos de aprender o sentido da justiça e igualdade, antes que se acabe o pão e surjam fardas e polainitos a agitar espadas e flechas, que nos esmaguem debaixo do cavalo.

No dizer do escritor colombiano Andrès Filipe Solano, “não ter dinheiro é como andar nu”.

Certamente, ninguém gosta de assistir a esta procissão de famintos e descamisados.

Mas ela anda aí, envergonhada, silenciosa e triste, pelas ruas da nossa terra, pelas vielas e avenidas das cidades, a vasculhar caixotes, a crescer em cada dia que passa.

E já nem os sermões conseguem estancar esta onda.

Os olhos e ouvidos só querem acordar quando ela rebentar contra as rochas e inundar a praça.

19.09.2018

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