Regressar…

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Inês Pina

Por: Inês Pina

Desde que me conheço que o mês de setembro me enche o coração no geral e a alma em particular.  Não me recordo, se nos famosos tempos de desdentada e cabelo penteado com super totós, ficava histérica com o regresso ás aulas. Sinceramente, acho que no meu tempo (esta expressão é só para usar ao cinquenta? Ou já posso usar?) as coisas eram ligeiramente diferentes. Sim, também havia os cadernos dos desenhos animados, as mochilas giras e tal, mas lá por casa quem mandava eram os pais e eles mandavam reciclar. No sótão de casa não tenho um único caderno que não tenha chegado ao fim preenchido pelas palavras e frases que a escola ditava. Também sonhava em ter todo o material novinho em folha, mas nunca foi uma exigência. Não podia sê-lo. Não havia mochilas e estojos novos todos os anos. Ainda hoje, tenho o estojo que me acompanha desde o ciclo!

A esta distância sinto ainda o cheiro dos livros novos, sinto o cuidado a arrumar a mochila, para que nenhuma folha fosse amarrotada. Sinto o sabor do pão com a marmelada para o recreio das dez horas. Enquanto escrevo, ainda sinto o vento das manhãs de setembro a bater na cara no caminho pelo meio da floresta que fazia todos os dias para ir para a escola. Outros tempos, sabores muito próprios. Foram estes os sabores e cheiros da minha infância.

Recordo, que à medida que o tempo ia passado um regresso às aulas trazia sempre um aperto no coração. Sabia que era uma página em branco que se escrevia. Este vazio sempre me angustiou. Na proporção da angustia havia sempre a expetativa de ser um novo ano, de ser uma oportunidade para fazer melhor. Comecei a perceber que o caminho passava pela escola, esta seria uma boa alavanca para mim. Era a quietinha nos intervalos (não investia muito nestes) e a de olhos esbugalhados na sala de aula. Sentava-me sempre na fileira da frente (sim era a marrona, a aplicadinha) escrevia tudo o que era dito. Bebia cada silaba. Aprendi que gostava de saber, sempre gostei de encaixar as peças do puzzle.

Hoje, vejo de fora esse mundo do regresso às aulas. Acho desnecessário todo o consumismo que o envolve. Acho que isso estrangula as famílias e não é o principal motor de motivação dos alunos. Vejo youtubers a exibirem materiais de regresso às aulas como acessórios e não explorando o lado funcional da questão. Como se o regresso às aulas e à escola no geral devesse ser a montra de estilo e não de sabedoria. Óbvio que sempre foi mais ou menos assim, regra geral a escola é a mini sociedade onde há elites e não elites. Quem não se lembra das/dos pop stars da escola?

É por se tratar de uma mini sociedade que vemos os país, principalmente dos mais pequeninos a soluçar. Agora, que vejo este cenário de fora, consigo colocar-me naquele lugar. Imagino o desespero de saber que os miúdos iniciam uma jornada sozinhos, que terão de decidir por eles próprios. Esse é o desafio de deixar crescer e é também o desafio de crescer! É difícil e dói! Faz parte do processo.

Compete à escola cumprir a sua nobre missão: formar pessoas! Mesmo com todas as variáveis que hoje as escolas estão sujeitas, estas não se devem desviar do foco. Formar cidadãos que se saibam informar, que saibam decidir sem influências, que saibam lutar por aquilo em que acreditam, que se envolvam, que sejam responsáveis pelas suas atitudes.

Bom regresso!

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