S. Tomé, uma viagem ao Equador

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Aspeto de São Tomé e Príncipe (Foto: Dão e Demo 2015 ©)

Por: Abílio Travessas

A oportunidade era única, conhecer S. Tomé e Príncipe na companhia da nossa amiga escritora santomense, Olinda Beja, que se deslocava à terra onde nascera para participar no 1º Festival Literário.

Abílio Travessas: Colaborador Dão e Demo

Pouco sabia desta ex-colónia, da sua história, apenas dos sucessivos presidentes e, não menos importante, dos tempos em que joguei no velho União de Coimbra, quase a fazer cem anos, em que tive o prazer de jogar com o Albertino Bragança, futuro escritor e político na sua ilha natal. Mais recentemente, inserido na série que Fernando Rosas gravou para a RTP, um episódio sangrento de repressão duma pretensa “intentona” comunista. A memória das vítimas está gravada num monumento em Batepá, praia de João Dias, onde foram mortas centenas de pessoas, muitas torturadas com crueldade inumana. Aconteceu em 1953 e ficou conhecido como Massacre de Batepá. O historiador Carlos Pacheco falou de “a espantosa ocultação que ainda hoje, decorridos quarenta e cinco anos (o artigo é de Fev. de 1998) o Estado Português continua a fazer dessa tragédia”. O presidente Marcelo Rebelo de Sousa passou por Batepá na última e recente visita e lamentou o sucedido. Não sei se pediudesculpas formais…

Quem se lembra do Portugal dos anos 50/60, a miséria das nossa aldeias, as estradas escalavradas, as falhas de electricidade, as retretes fora da habitação, as raras casas com água corrente – os fontenários, de cuja construção ainda recordo, “avanço civilizacional” trazendo a água de Terroso – terá uma imagem de S. Tomé. Acrescente-se o abandono das roças, de cacau e café, as casas dos roceiros que ainda recordando o esplendor perdido, as maiores com hospitais bem apetrechados, e o que resta das instalações industriais, das escolas e igrejas, estas em bom estado.

Aspeto da roça Agostinho Neto, em São Tomé e Príncipe (Foto: Dão e Demo 2015 ©)

A debandada dos portugueses após a independência trouxe anos de muitas dificuldades e outros aproveitaram para se instalarem. Sinais da cultura ocidental estão nas lojas de telemóveis e em inúmeros pequenos cubículos de madeira para os carregamentos. Igrejas adventistas são muitas com nomes que desafiam a imaginação. Uma procissão surrealista com três jovens brancos, loiros, entoando cânticos; uma, jovem branca e loira, empunhava uma cruz, em madeira, muito simples. Em Batepá, domingo de Páscoa, um pastor negro, mangas de camisa e engravatado, oficiava em Igreja de madeira; do outro lado da rua uma enorme lixeira a céu aberto, o cheiro da miséria. Da alma é preciso cuidar, do corpo não, esquecendo a sentença latina primum vivere, deinde philosophari.

Ilhas exuberantes  de verde, de praias, de paisagens, dão alimento a todos sem grande esforço. Não há fome, as crianças são muito bonitas, como quase toda a gente e, espanto dum europeu, poucos naturais fumam.  Aspecto deplorável é dado pelos cães, escanzelados, passe o pleonasmo, um perigo para a saúde pública. Jornais não há nem chega de Portugal, no mínimo ao Centro Cultural Português, um diário. Qual o papel da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa)?

Vista geral da área hospitalar da cidade de São Tomé (Foto: Dão e Demo 2015 ©)

Num dos percursos pelo interior de S. Tomé visitamos um jardim botânico com as espécies autóctones que deslumbram  e, depois, almoçámos na Casa Museu Almada Negreiros, versos anti-Dantas nas paredes. Já agora, o grande Viana da Mota, também nasceu aqui. Mas quem não quiser conhecer estas ilhas compra um pacote de férias e isola-se em complexos turísticos de luxo, antigas roças recuperadas por capitais estrangeiros como as que visitámos em Príncipe. Paraísos para endinheirados que contrastam com a vida nas aldeias e cidades e que nos fazem doer a alma.

A Olinda Beja é muito querida na sua terra, donde foi levada pelo pai, branco, ainda menina, para Mangualde. Participou no Festival Literário de S. Tomé, além do escritor-editor de Cabo Verde, Filinto Elísio, Afonso Cruz, de Portugal, Odete Semedo da Guiné-Bissau e Ondjaki de Angola. No Príncipe, onde estivemos três dias, Olinda apresentou o seu último livro, acompanhada musicalmente por Filipe Santo, num registo muito diferente do que estamos habituados em Portugal.

Por fim: numa das sessões do festival foi exibida uma curta-metragem sobre o processo do abandono das roças após a independência, consequência da saída dos patrões e dos quadros portugueses. Não teria sido possível outra via para uma ex-colónia que não conheceu a luta armada, sem os traumas que ela trouxe em todas as outras?

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