Saber ouvir.

0
375
António Fernandes Silva

Por: António Fernandes Silva

Manda a educação, que vem de casa, que se aprenda a ouvir toda a gente.

Ouvir os ensinamentos dos outros, ouvir o murmúrio das ondas e do vento, ouvir os queixumes e lamentos, ouvir a voz da Natureza, sentir a paz e os segredos do silêncio.

Só depois se deverá falar. Mas, primeiro, ouvir.

No sermão aos peixes, aprendemos que, tendo dois ouvidos e, apenas, uma boca, se deverá falar muito menos do que ouvir.

Mas esta vontade de correr mundo e de firmar presença, com marcos e padrões, faz criar guelras e escamas, garras e dentes afiados que nos levam a todos os cantos para disputar espaços e opiniões, deixando que, como todos os peixes e animais, os grandes amarfanhem e destruam os mais pequenos, até que apenas os grandes sobrevivam.

É o que fica a descoberto em cada tragédia.

É o que um coração amanteigado consegue disfarçar na distribuição de beijos e abraços.

É o que desculpamos com o voluntarismo, embrulhado em desleixo, no socorro imediato que prestamos a quem perdeu ou arriscou a vida e os haveres.

Passado o luto, as cerimónias e a exibição de uma gravata, os pobres e desfavorecidos, os idosos e abandonados, as aldeias do interior, sem meios nem recursos, que se valham da solidariedade e apoio de outros pobres, que ali resistem e escolhem viver.

São esses os primeiros, e muitas vezes os únicos, a compreender a sério a dor e os problemas dos vizinhos. São esses que carregam o luto e o castigo das fracas condições de vida.

Mas nem por isso lhes fica mais leve a pena e a carga de impostos pela luta desigual.

Basta ver os apoios e serviços indispensáveis que ali fecham, uns atrás de outros.

O grupo solidário dos amigos de longe, que trouxeram a televisão e os jornais, amanhã já não se lembram onde fica aquela aldeia destruída ou o cemitério onde se enterrou um rosário de esperança e de razões para continuar a viver na solidão daquela terra.

Os governantes de proximidade já têm amigos suficientes para cuidar e consumir as migalhas que possam sobrar, após a distribuição de benesses e o pagamento de mesuras.

A dita transparência e cuidado, a igualdade de tratamento e a justiça social, o zelo e dedicação à causa pública terão de voltar aos bancos da escola para conseguirem aprender a percorrer  caminhos, a soletrar os temas com linhas diferentes e a corrigir gramáticas.

Só com muito empenho, de ouvidos bem abertos e olhos capazes de ver mais longe, lá iremos chegar. O resto, tudo o resto é conversa.

Já ninguém se deixa embalar em conversas de circunstância ou comprimidos de promessas.

Aceita-se um abraço e um lenço para secar as lágrimas, mas fica cá dentro a revolta pela forma como invadem este silêncio, nas horas de infortúnio. Essa não se deixa iludir nem adormecer.

O silêncio desta lonjura ensina a ouvir e a ver melhor.

Mas há orelhas moucas de chacais a invadir o território.

17.01.2018

pub

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.