São caracóis.

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António Fernandes Silva - colaborador Dão e Demo jornal digital

Por: António Fernandes Silva

Os primeiros calores de Verão começaram, finalmente, a apertar, abrindo os braços ao solstício e rasgando janelas de alegria que as festas populares irão pintar em cada esquina.

O cheirinho a férias mistura-se nos vapores dos fogareiros, a adivinhar longas noites de folia e de conversa, em acerto e recuperação de tempo e de saudade.

Pela praça, o cheiro da sardinha assada envolve-se na música da esplanada, cruzando as fumarelas dos rosmaninhos a perfumar a calçada.

Há quem dance e quem salte a fogueira, na esperança de atirar para longe tristezas e carestias, indefinições e nuvens negras, vidas complicadas e preocupações crescentes. Dançam sozinhos, porque deixaram de acreditar que as valsas e o tango só podem dançar-se aos pares. Outros dançam à roda para disfarçar a sua falta de jeito para acertar o passo ou por se terem habituado a entrar só em bailes mandados. Há os que dançam com qualquer música e há, também, quem não dance por não arranjar parceiro ou para não cair no ridículo de mau dançador.

Nos arraiais, como nas feiras, encontra-se de tudo.

Nos bailes de antigamente, à volta da sala, as damas e matronas vigiavam, de soslaio, o comportamento e o jeito de quem dançava para escolher ou corrigir o destino das donzelas  que se cruzavam, sorridentes e enrubescidas, nos braços garbosos de jovens fulminados por tantas atenções e olhares.

Hoje, à volta dos bailaricos, abana-se o capacete, de garrafa em punho e telemóvel na mão, alheio à música, à conversa e à própria festa.

As mesas ficam para lá dessa barreira. Aí, mastigam-se tremoços e amendoins, como alegria dos pobres. A sardinha, cara e escassa, manda trocar a cerveja por vinho. Porque estamos nos meses sem “r”, quando eles são melhores, entram na dança os caracóis para deixar a cerveja a ganhar e levantar ondas contraditórias de nojo e de prazer.

Uns devoram-nos em autêntico delírio, como se o mundo coubesse todo naquele prato; outros cospem para o lado e afastam-se da mesa, como se os vissem a pôr os corninhos de fora e a escorrer baba, arrastando-se para o seu copo.

A altura da música convida ao silêncio ou à linguagem gestual, em caso de necessidade.

A televisão, a falar também sozinha, fala das guerras do futebol, dos refugiados à deriva, sem ninguém que lhes estenda a mão e os acolha. Nem os beijos e abraços do Presidente da República desviam a atenção do prato; muito menos interessa o que ele estará a dizer ou as lágrimas e más memórias que vai ajudando a secar.

O palito vai sacando os caracóis da casca e tudo o resto passa ao lado. No fim, até o molho será aproveitado no pão.

Sonhar com outro futuro, fica para depois.

Aproveitem-se, agora, os caracóis e coroemo-nos de rosas!

20.06.2018

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