Saúde ou estatísticas?

0
554
Paulo Marques: Colaborador Dão e Demo jornal digital

Por: Paulo Marques

Atualmente existe uma grande histeria nos estudiosos e opinadores do serviço público de saúde, relativamente ao uso excessivo e abusivo da cesariana.

Naturalmente que a cesariana pode e deve ser usada apenas nos casos medicamente diagnosticados e cuja necessidade seja evidente. No entanto, as estatísticas dizem-nos que tem havido um uso exagerado deste procedimento.

Curiosamente, ou talvez não, a taxa de cesarianas no sector privado é o dobro do público. Ou seja, quem paga tem direito a escolher quando e como tem o seu parto.

No público, mesmo assim, a taxa é também alta e, segundo dizem, deve ser reduzida.

Aqui chegados há, no entanto, que refletir sobre estas conclusões de modo a não criar situações perniciosas, que podem pôr em causa a saúde dos bebés e das mães e que, simultaneamente, ajudam mais uma vez ao financiamento dos hospitais privados.

Já vi vários exemplos concretos de más decisões médicas que implicaram sofrimento escusado para as parturientes e para os seus nascituros.

A decisão de esperar até à exaustão pela criação de condições para um parto natural que já sabemos que não vai acontecer.

A decisão de tentar até à última que haja um parto natural mesmo quando o parto do primeiro filho foi por cesariana e a situação clínica é semelhante ao que aconteceu da primeira vez.

A decisão de preferir tirar um nascituro à força, com ventosas, fazendo com que o nascituro sofra desmesuradamente e a parturiente passe o dia seguinte no bloco operatório a tentar sobreviver às hemorragias causadas pelo parto, sem saber ainda as consequências para o futuro. Isto enquanto o médico fala de Deus e de religião, das suas convicções, sem se importar com o mal que está a fazer.

Isto são situações que acontecem muito mais frequentemente do que deviam. A troco de quê? De tentar baixar uma estatística.

Depois temos o reverso da medalha. Quando 66% dos partos nos Hospitais privados são feitos com dia e hora marcados, por cesariana, para comodidade de todos. Tenham ou não necessidade do procedimento, actuando aí os médicos sem o rigor e cumprimento das recomendações da OMS.

Então mas os médicos não têm de cumprir as mesmas regras estejam no público ou no privado? Não seria interessante investigar o porquê de no privado assim acontecer?

A verdade é que a conjugação das duas realidades torna o recurso aos Hospitais Privados muito apetecível. Cada vez mais, quem sofreu com o parto, e sofreu com decisões médicas que pretendem baixar estatísticas, prefere escolher um Hospital que lhe dê garantias do contrário, podendo até acontecer que o mesmo médico atue de forma diferente. E, desta forma, nesta como em muitas outras decisões, o poder público ajuda a financiar a saúde privada em detrimento do SNS.

Não é por acaso que nos últimos anos os Hospitais Privados nasceram como cogumelos, ao mesmo ritmo do desinvestimento do Estado nos seus Hospitais.

pub

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.