Seara alheia.

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António Fernandes Silva - colaborador Dão e Demo jornal digital

Por: António Fernandes Silva

Impressionante o colorido verde e amarelo que, por estes dias, pintou as primeiras páginas dos jornais e televisões.

As preocupações e interesses do mundo inteiro percorreram as ruas e recantos do Brasil, pondo de lado as dores de cabeça das guerras e dificuldades que se desenrolam pelo mundo inteiro, como se tudo tivesse parado na ansiedade dos resultados de uma eleição ou como se fosse um acontecimento transversal a qualquer país.

A pobreza e os refugiados, a violência e os maus tratos caíram no esquecimento. Todos queriam partilhar da decisão que, embora de importância universal, dizia respeito a um país soberano, maior e vacinado na cena política internacional.

E lá andamos nós a dizer mal de um e a endeusar o outro candidato, como se conhecêssemos a realidade e os meandros da vida num país de sobressaltos.

Ficamos de boca aberta e parece que não queremos engolir a determinação de quem escolheu

Não conseguimos ler a expressão desta vitória nem entender as razões dos seus porquês.

Vemos a classe política de cara à banda sem coragem para avaliar a saturação crescente do povo, perante os desmandos e rapinas, cometidos a toda a hora, sem um pingo de vergonha ou respeito por quem a elege.

O dicionário da postura e seriedade dos governantes, ao longo dos anos, riscou e arrancou páginas e palavras que exigiam dignidade e bom senso no exercício do mandato e impunham consideração pela vontade soberana do povo.

São essas atitudes que provocam a revolta silenciosa, expressa em votos de mudança.

Poderá não ser a forma mais racional de resolver as questões e desequilíbrios, mas toda a vida se disse que o voto é a arma pacífica de quem se cansou de sofrer e a expressão mais clara da vontade de corrigir caminhos e projectos.

Podemos encher a boca com discursos arrebatados ou assembleias de promessas. Podemos  admitir que o povo nem sempre saberá bem o que quer. Mas sabe, de certeza, o que não quer.

A história das nações ensina que, ao longo dos tempos, as guerras e revoltas internas surgem do cansaço, das injustiças e da opressão dos povos. Basta um caudilho ou um D. Quixote para incendiar as velas do moinho.

Há tantos exemplos…Nem precisamos de recuar muito ou de olhar para longe.

E bem sabemos que a história e o cansaço se vão repetindo.

Quando se vê o fogo na casa do vizinho, é bom começar a proteger o próprio território.

Antes de meter a foice em seara alheia, é bom avaliar o estado da palha e das sementes que se produzem neste “jardim à beira mar plantado”.

Os ceifeiros podem, a qualquer momento, trocar o samba pelo fado.

E o povo, esse, indiferente, tanto bate palmas a um como a outro. Ninguém gosta de uma vida aos pontapés.

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