Sernancelhe não esquece o 25 de Abril

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(Foto Rua Direita)

Todos os anos, de forma digna e elevada, Sernancelhe lembra e comemora o 25 de Abril.

Nesse dia tão cheio de simbolismo, o Executivo municipal galardoa cidadãos que se distinguiram, nos mais diversos domínios pela sua dedicação ao Concelho.

Desta feita, foram homenageados 18 antigos presidentes das Juntas de Freguesia que, e no mínimo, exerceram o seu mandato durante dois mandatos, tendo deixado obra feita fruto do seu empenhamento e acção.

Os homenageados, em frente ao edifício da Câmara de Sernancelhe.

Esta ano, como o Salão Nobre se tem revelado exíguo para a quantidade de pessoas presentes, foi decidido que a cerimónia se realizaria no exterior, frente à entrada do município. Em boa hora o decidiram e até a meteorologia esteve de acordo com tal alvitre.

Às 09H00, instaladas as pessoas, foi passada revista à guarda de honra dos Bombeiros, seguindo-se o hastear das bandeiras, de Sernancelhe, de Portugal e da Europa.

A banda de Ferreirim entoou “Grândola Vila Morena” e o “Hino Nacional”. Dois jovens declamaram poemas alusivos à efeméride. Usaram da palavra Leonor Nascimento, pelo PS, Cláudio Vitorino pelo PSD e, o vereador Armando Mateus enumerou os homenageados e apresentou os factos que a motivaram.

Seguidamente, os dezoito ex-autarcas, receberam das mãos dos presidentes da Assembleia Municipal e do Município a respectiva Medalha de Serviço Público, mais o respectivo diploma.

Usaram da palavra três dos dezoito homenageados, pelo PS, CDS e PSD, passando-se à intervenção de Carlos Silva Santiago, que aqui se deixa na íntegra:

Minhas Senhoras e meus Senhores

O nosso grande escritor Aquilino Ribeiro pautou a sua vida pela Liberdade. Esta coerência de vida é um exemplo para todos nós sernancelhenses, que com ele partilhamos a terra que nos viu nascer.

Hoje é dia de lembrar a Liberdade.

(Foto: Rua Direita)

A liberdade que todos nós acima de tudo desejamos, que nos domina e não nos elimina, e é quanto, fruto da nossa experiência, nos põe em relação com tudo na vida: direito, moral e natureza.

Estas primeiras palavras são para vos saudar, a todos quantos, aqui e agora, de forma tão numerosa, assistem a esta cerimónia de evocação do 25 de abril, prova cabal de que esta data e a sua simbologia estão bem vivas e continuam fundamentais para todos nós.

Por isso, a assinalamos e evocamos, com rigor, com entusiasmo e com elevação.

Ciente de que todos assim o entendem, agradeço por nos distinguirem com a vossa presença, neste dia de grande solenidade e importância para a nossa terra e para o nosso país, nesta partilha da distinção e dignificação da democracia, da igualdade e da conquista dos direitos fundamentais do ser humano, para a plena assunção da sua íntegra vivência.

Cumprimento ainda de forma muito especialmente calorosa todos os ilustres homenageados em anteriores edições do 25 de abril, que, aqui, sempre e com orgulho, ostentam a medalha que lhes foi outorgada, numa clara demonstração do quanto sentem e devotam ao concelho de Sernancelhe.

Celebrar o 25 de abril de 1974 é a consagração da restituição ao povo português do sentimento sagrado da Liberdade, é a demonstração da consciente responsabilidade dos portugueses, na esperança e na resistência às adversidades.

Celebrar abril é também um tempo que nos impele a uma reflexão profunda sobre o passado, o presente e o futuro.

Do passado restam as memórias, os testemunhos e as vivências dos que nos antecederam. Um património enquanto identidade e raiz.

Deste presente em que nos congregamos, vivemos conquistas como a dignidade e o progresso, o desenvolvimento, a proteção social e a qualidade de vida para os cidadãos.

O futuro é a vontade fortalecida deste persistente de fazer, cientes de que há sempre mais a concretizar na missão de construir, diariamente, com trabalho, com responsabilidade e com determinação para os fundamentos de uma vida melhor.

Abril é, por isso e pelo seu mais amplo significado, uma grande oportunidade para que em conjunto reflitamos sobre um passado próximo e, com ele, lendo com atenção as suas linhas evolutivas, possamos arquitetar o futuro, na efemeridade deste presente.

A grande força de abril é evidente e esse feito deve-se a uma das maiores conquistas que a liberdade trouxe para todos:

o verdadeiro poder de proximidade com o povo, o Poder Local e com ele investimento público e a decorrente e consequente modernização Social.

Por isso, tenho a firme certeza que o Poder Local foi o principal motor da mudança e desenvolvimento no Portugal Democrático.

Hoje seria impensável um Portugal sem um poder local determinado, atuante, ativo, atento e vigilante.

Contudo, deixa-me muito apreensivo que, tantas e tantas vezes, a sua missão seja incompreendida e recorrentemente diminuída.

O momento que hoje vivemos é decisivo para o nosso País, sendo imperioso que as Câmaras Municipais e as Freguesias tenham as competências consentâneas com as exigências do século XXI, que não sejamos meros funcionários do Governo Central, mas curiais elementos do Poder Local e da proximidade entre todos nós.

E porém, para lá dos nossos anseios e desideratos, constatamos que o poder local está injusta e ingloriamente deslocado e obsoleto nas suas atribuições…

Para alinhar nesta caminhada para diante é fundamental que os municípios possam atingir novas competências em setores estratégicos como a Saúde e a Educação.

Numa altura em que a Descentralização é assumida como o grande chavão para o Desenvolvimento do País, nomeadamente para as regiões do interior, como o exemplo de Sernancelhe, territórios designados de baixa densidade, é necessário estarmos muito firmes nas nossas convicções e exigirmos a excelência nos serviços e não apenas as condições físicas das instituições.

De que servem as paredes e os tetos sem os homens que agem?

Porque espera o País para perceber que só haverá Saúde e Educação de qualidade quando a sua gestão for feita pelos Municípios?

Porque não pode um município contratar um médico ou um professor para o seu Concelho, quando o Estado não alcança fazer a sua substituição em tempo oportuno, prestando um mau serviço público?

Porque não pode um município ter uma palavra a dizer sobre os médicos, enfermeiros e professores, lutando pelos recursos humanos que são fundamentais para o bem-estar e qualidade dos serviços aos cidadãos? Porque teremos de continuar a ser vítimas de um desajustamento burocrático absurdo?

É esta a descentralização de que tanto falam?

As palavras não significam nada se não forem recebidas como um eco da vontade de quem as ouve…

Pagar a luz, limpar o edifício, reparar o telhado ou as janelas? Se é isto é o conceito estatal de descentralização, estamos perante um grave problema. O meu Povo quer médicos, enfermeiros que lhe propiciem bom serviço de Saúde e os meus alunos querem ter bons e permanentes professores, pois desejam aprender. Desta forma e naquela ótica visto, o poder local não passa de um pagador de contas e de gestão de qualidade de parca relevância.

É pouco, muito pouco para aquilo que entendemos deverem ser as nossas capacidades, os nossos direitos e os nossos deveres ao serviço pleno de todos vós.

De que nos vale ter um centro de saúde novo, se não temos médico e nem sequer temos autonomia para o contratar? De que nos valem escolas novas, bons transportes escolares, boas cantinas, excelente alimentação… se não podemos substituir um professor que esteja a faltar, até e pelos mais justos motivos? Afinal, que descentralização é esta assim servida e tão mal amanhada?

Hoje, o Município de Sernancelhe vai distinguir com a Medalha de Serviço Público, 18 obreiros do poder local concelhio: os presidentes de junta que estiveram ao serviço das freguesias pelo menos durante dois mandatos consecutivos.

Ao fazê-lo visamos dar continuidade ao ciclo de homenagens iniciado em 2009, quando distinguimos, pela primeira vez na história municipal, 12 antigos autarcas.

E porquê homenagear tão justamente os presidentes de junta?

Porque eles são o rosto e os braços de décadas de evolução do Concelho, fase após fase, criando as melhores condições de vida para as populações, como saneamento, eletricidade, acessos e, posteriormente, na criação de condições garante da qualidade de vida nas comunidades, como a edificação de equipamentos sociais, culturais, desportivos e recreativos, assim como a preservação e valorização dos símbolos e manifestações identitárias das freguesias do Concelho de Sernancelhe.

Ademais, estes eleitos foram o pilar matricial do funcionamento democrático em cada terra, a voz do povo a executar em linha direta e reta as suas funções de autarcas de forma dedicada, leal, íntegra e voluntariosa, assegurando a organização dos serviços, o planeamento e a gestão financeira, o ordenamento do território e a proteção civil, áreas curiais para o desenvolvimento equilibrado e sustentado das freguesias, que são e formam a essência conjunta do tecido do nosso Concelho.

Muito honra este Executivo ter aqui, à sua frente, todos quantos encarnaram este papel, todos quantos foram protagonistas desta ação devotada, todos quantos souberam assumir o papel de cidadãos da política no pleno significado da palavra, todos quantos acima do partidarismo oportunista e degradante, souberam pôr nas suas missões a nobreza do bem comum.

Aqui corporizados, estes 18 cidadãos, são a expressão mais pura de quanto o Poder Local sabe fazer, tem para dar e, no testemunho deixado dos seus atos, transmitirá aos vindouros como modelar exemplo para todos nós e como matriz de uma identidade a preservar, a louvar e cuja continuidade é o ex-libris do nosso saber fazer.

E é de certa forma firmados nesse Vosso agir e no exemplo deixado pelo nosso antecessor que prosseguimos na senda do desenvolvimento, sem cansar para alcançar.

Sernancelhe é um Concelho do Portugal profundo.

Porém, tal constatação, longe de nos limitar à adversidade, concede à nossa posição geográfica, ao ADN das nossas gentes, a nossa determinação, demonstrando ser a nossa força e pujança, o nosso ganhador trunfo.

Ainda que não esqueçamos o quanto é difícil a concelhos do Interior do País manterem uma trajetória linear de progresso, consolidada e equilibrada, acreditamos que com planeamento, união, força e determinação seguiremos em frente, sempre na certeza de que estamos a dar os passos corretos rumo ao amanhã.

As últimas décadas têm demonstrado que os sernancelhenses são determinados, empreendedores e portadores de valores que lhes definem o caráter, quer sejam os que cá residem e trabalham, quer sejam os exemplos da nossa grande comunidade emigrante, que mantém uma ligação forte com a nossa terra, com bairrismo e amor vivendo intensamente tudo que aqui se projeta e concretiza para um amanhã melhor.

Os sernancelhenses são portadores de valores que vão ao encontro dos princípios de abril, hoje aqui reafirmados no reconhecimento, simbólico, destes homenageados que são o claro exemplo de como é possível transformar adversidades em oportunidades.

Por eles e pelas nossas gentes que tão bem serviram, justifica-se que a cada 25 de abril, honremos e homenageemos os obreiros da nossa terra.

Viva o 25 de abril!

Viva Sernancelhe!

Viva Portugal!

(Foto: Rua Direita)

José Agostinho Nascimento fechou a cerimónia, tendo-se rumado, no encalço da banda, para o pavilhão multiusos onde decorreu a excelente exibição do cantor André Sardet e o seu quarteto. Foi mais de uma hora de concerto vivamente participado pelas muitas centenas de espectadores presentes.

Para finalizar foi servido um almoço volante/buffet que encerrou o dia na maior e mais aprazível convivialidade entre todos os presentes.

Sernancelhe não esquece Abril…

Cortesia: Rua Direita | Fotos de Vítor Rebelo e RD

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