Sernancelhe: Vamos cantar as janeiras?

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“Na alba do Ano Novo, ainda as árvores de carôço pela fôlha e os carvalhos pelos cerros pareciam rocas, grandes rocas carregadas de lã ruça, romperam os ranchos a pedir as Janeiras. (…) Estava um frio de rachar, dos beirais pendiam candeias de caramelo, e os rapazes, todos de pata ao léu, batiam o dente e sopravam às mãos encalidas. O mais novo, o Toninho, era o mais arreganhado, com o cabelo cortado às escaleiras, em pé como de cão que viu lobo, sem outro agasalho além da camisa de tomentos e das calças de cotim, rachadas atrás e presas por uma alça, que para cúmulo da desgraça se rompera pela ponta e era obrigado a segurar nos dentes.”

Aquilino assim descreve o Cantar das Janeiras, outrora, menino, na sua terra natal, Carregal, de Sernancelhe.

Ontem, domingo dia 7, Sernancelhe não esqueceu a tradição e, desta feita, com os descendentes dos “Toninhos” de antanho, juntou 12 grupos e, na tepidez do Exposalão Multiusos, foi uma alegria ouvi-los cantar.

Estiveram presentes os Centros Lúdicos do Concelho (Chosendo, Cunha, Granjal, Lamosa, Penso, Sarzeda, Seixo, Sernancelhe, Tabosa da Cunha e Vila da Ponte). E que lindos que eles vinham, cada centro com o lenço de sua colorida cor ao pescoço…

Os Ranchos Folclóricos de Sernancelhe, das Arnas e de Moimenta da Beira. E que bem arranjados estavam nos seus trajos a preceito…

Os grupos de cantares de Sincelo de Penedono, os Bairristas do Seixo, de Arrifana – Guarda e o Coral da Paróquia de Sernancelhe, todos mais pareciam querubins…

A freguesia do Carregal, terra de Aquilino, que tão bem toou…

As Bandas Musicais 81 de Ferreirim, Filarmónica de Sernancelhe e a Academia de Música local. E quão síntonas elas estavam…

Senhora que lá está dentro,

Linda rosa encarnada,

Mande a moça à salgadeira

Dar-nos ‘smola avantajada.

Uma chouriça p’ra mim,

Outra p’ro mê camarada.

Dê-nos figos do sequeiro,

Ou bôla de tabuleiro,

Uma peça de fumeiro,

Ou da burra do dinheiro.

Se lhe custa dar-nos disso,

As castanhas do caniço.

Ó minha rica senhora,

Cumpra a sua obrigação,

Meta a mão à algibeira,

Puxe cá um salpicão.

Se o presunto está têso

E a faca não quer cortar,

Faça-lhe ferrum-fum-fum

Nos beiços do alguidar.

 

E quase podíamos ouvir os cantares do passado, para tantos dos presentes ainda a ecoar no ouvido da memória. A Câmara de Sernancelhe não esquece a tradição e é nessa revivida tradição que congrega as suas gentes, tirando-as de suas casas, dos Lares, muitas de sua solidão, para e assim, tão genuinamente proporcionar a todos umas Janeiras de alegria, como aquelas que Aquilino tão bem nos descreve no livro que dedica assim:

“À memória de minha Mãe, humilde, boa e religiosa sem ser pelo interesse de ganhar o Céu”, in “O Livro do Menino Deus” (1945).

Cortesia: Rua Direita

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