Setembro chegou.

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António Fernandes Silva - colaborador Dão e Demo jornal digital

Por: António Fernandes Silva

Se bem me lembro…

As férias acabavam quando o mês de Setembro nos vinha tocar a campainha. Podiam ter sido meses de descanso ou de ramboia, mas Setembro chamava, outra vez, toda a gente à razão, convocando cada um para o seu posto de sentinela.

Acabavam os devaneios da praia e os amores saltitões, as juras e promessas de corações enamorados, os encontros imprevistos, em festas e romarias, onde se arranjavam pares, se aprendia a dançar e se disfarçava o sono de longas noites de folia.

Era mesmo o regresso a casa. Era o desmontar das tendas e ilusões. Era esvaziar a mochila e pendurá-la ao sol, para escolher a nova companhia de livros e cadernos do ano escolar, prestes a iniciar, que depressa se iriam intrometer nos segredos e conversas que o vento e as ondas não tinham deixado chegar ao fim. E o calor dos beijos e abraços furtivos, quase roubados, faziam tremer as matrículas e escolhas de carreira, presas na esperança de rever o brilho daqueles olhos e as ondas e curvas daquele mapa físico, que faziam parar a respiração e perder o sono.

Rendidos aos acontecimentos, o entusiasmo de novos encontros e projectos morria no areal, como se não houvesse futuro, ou como se os curtos meses de Verão valessem uma pipa da melhor colheita, marcando o percurso de uma vida.

Ainda hoje Setembro obriga a serenar. Serenar o passado, espevitar o futuro.

O rebuliço das férias esmorece na encruzilhada do tempo novo, que não embarca em romantismos e ilusões. A realidade concreta obriga a tirar o chapéu e os óculos escuros que disfarçavam o rigor do sol. Os chinelos e calções remetem para discursos de gravata que obrigam à pose solene de ver o lixo da praia e os contentores a abarrotar de problemas.

As greves e paralisações voltam a ameaçar o sossego das ruas e escolas como quem acorda de um sono mal dormido. Os serviços entraram de férias, na esperança que o tempo resolvesse por si as pendências de mau funcionamento ou que alguém varresse os entraves e dificuldades que reclamam solução urgente. Mas ninguém pegou na vassoura.

Setembro vai obrigar a varrer tudo para debaixo do tapete, à espera de novas revisões ou alterações de percurso, de novo adiamento de verbas e soluções que não se encaixam no equilíbrio de orçamentos e governanças.

As dívidas aumentam, mas o optimismo manda dizer que toda a gente está contente por viver melhor, que tudo corre bem, que tudo se vai resolver a tempo e horas e de uma vez por todas, que haverá mais investimento e emprego para todos, que os impostos vão baixar, que as pensões e passes sociais vão ser melhorados, que os comboios ferrugentos voltam à linha.

Sabemos que o sossego e “o engano de alma ledo e cego” não podem durar muito.

Setembro manda calçar as botas e fazer-se ao caminho, que se afigura longo e mais difícil.

Se as saudades da praia e da vida airada ou os discursos fáceis de Verão nos trocarem o sentido do olhar e nos quiserem fazer voltar ao mar, que seja para percorrer “mares nunca dantes navegados” e espicaçar o brio de dar “novos mundos ao Mundo”, como, antes de nós, fizeram tantos lusitanos.

Setembro chegou e manda.

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