Tempo das amoras.

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António Fernandes Silva - colaborador Dão e Demo jornal digital

Por: António Fernandes Silva

O Martinho era um aluno alegre e bem disposto. Às vezes, atento a tudo o que se passava à sua volta; outras, centrado no seu mundo e nas suas ideias, fechando portas e janelas ao arejamento da caverna onde  conseguia sentir-se rei e senhor absoluto.

Desde os tempos da escola, gostava de aprimorar o jeito e o punho por uma caligrafia bonita que deixava orgulhosa a professora que lhe ensinou a desenhar as primeiras letras.

Prestável e simpático com os colegas, aproveitava todas as oportunidades para cair no goto dos professores mais exigentes e das disciplinas em que se sentia mais desamparado.

Nunca aprendeu latim, mas gostava de citar autores clássicos, como se lhes conhecesse os texto, em traduções livres e vernáculas, numa sonoridade próxima dos ditos originais.

Como Cícero, na antiga Roma, lamentava os acontecimentos da época, os vícios e atitudes menos correctas de alguns colegas e amigos. Saltava-lhe, a toda a hora, a censura que o seu conhecimento superficial atribuía aos tribunos, no senado: “ó tempo das amoras!”.

Por mais que o tentassem emendar, soletrando a oratória autêntica, ele persistia na sua versão própria, como os tocadores de ouvido e autodidatas de todos os tempos.

Nem a sabedoria dos mestres conseguia desmontar a carapaça dos seus convencimentos.

Não eram verdadeiras crenças ou opiniões fundamentadas. Era uma maneira própria de disfarçar as aparências e fingimentos em que tinha formatado a sua forma de crescer.

Vemo-lo, mais tarde, como homem de negócios.

Deixa de falar do tempo das amoras, mas continua a regar o canteiro das aparências, onde cultiva extravagâncias, vaidades e caprichos.

Percorre jardins efémeros de aventuras, tentando encostar-se às árvores de maior sombra e sucesso, sem preocupação pela cor das suas flores ou pela doçura dos seus frutos.

E salta de flor em flor. E descasca o sabor de cada fruta sem qualquer gesto de amargura ou rejeição.

Renega passados e cerra um e os dois punhos por entre aplausos, setas, rosas e cravos.

“Esquece ideias próprias e aprende a dizer “sim” em todas as línguas e dialectos, treinando os joelhos e a coluna vertebral para vénias e gestos submissos”

Esquece ideias próprias e aprende a dizer “sim” em todas as línguas e dialectos, treinando os joelhos e a coluna vertebral para vénias e gestos submissos que lhe roubam a capacidade de  se manter de pé e se diferenciar dos milhões de insectos e rastejantes que enchem o universo.

Importante é figurar na caderneta.

Alistado na falange, presta juramento de fidelidade e depressa chega ao comando.

De “sim” em “sim”, o Martinho manobra o tabuleiro onde consegue dar ordens e impor vontades e favores, recolhendo proveitos e mesuras, longe de qualquer suspeita ou censura.

Arregimenta centuriões e falangistas que o defendem, de sabre nos dentes, enquanto não aparecem águias e estandartes de novas legiões, porventura, mais convincentes e ganhadoras.

Riscado da caderneta de cromos, o Martinho desfia o rosário de benefícios e comendas que foi distribuindo. Umas de retorno imediato; outras, apenas de prestígio; muitas outras, de desprezo e ingratidão, pelas marcas e atropelos deixados a céu aberto.

Olhando para traz, comparando os novos impérios com as esferas dos seus mandatos de glória e influência, as suas jogadas de mestre e tantas promessas de bastidores, considera-se um anjo inocente e um gestor do poder local integro e exemplo de trabalho e verticalidade.

Só lhe faltam as asas.

“Quanta gente lucrou com o meu silêncio e falta de coragem!… Esses continuam no poleiro…”

Abanando a cabeça e agitando a bengala, que lhe vai fazendo companhia, naquele banco escondido, procura sarar feridas, enquanto repete, em voz cansada, a recordar velhas glórias e conquistas:

“Ai tempo, tempo! Ai belo tempo das amoras…

Ai tempos em que eu mandava e podia. Todos me abraçavam e aplaudiam.

Tinha toda a gente na mão. E todos se governavam à minha sombra.

Agora… nem o vento, nem o sol me conhecem.

Só os prédios falam de mim. Mas não fui só eu que tive culpa destes abusos e alterações.

Quanta gente lucrou com o meu silêncio e falta de coragem!… Esses continuam no poleiro…”

……

As amoras não têm tempo nem lugar para se afirmar. Qualquer silvado ajuda e esconde.

Continuam a proteger-se do calor do sol e a crescer entre espinhos, invadindo os caminhos da nossa terra.

Com a proibição dos herbicidas, estamos condenados a mudar de rumo se não quisermos ser engolidos no seu crescimento e devorados no inferno da sua força.

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