Tempos e modos

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António Fernandes Silva

Por: António Fernandes Silva

Estas mochilas a correr as ruas da nossa terra levam-nos ao tempo da inocência e das sacolas mais ligeiras, usadas por outras gerações. Os cabelos brancos pintam-se de saudade e os bancos do jardim deixam escapar uma lágrima furtiva de nuvens e lembranças do alarido que enchia de vida os carreiros lamacentos e o pátio do recreio de todas as escolas das nossas aldeias, agora desertas e triste.

Ruminamos o silêncio e abandono desses recantos, embarcando na felicidade dos meninos à espera do autocarro, que os vai levar à escola da vila, aos primeiros raios da manhã.

Para disfarçar lembranças e travessuras da infância, deixamos que o coração se acalme, roçando frases soltas, que fomos aprendendo ao longo da vida.

Com alguma devoção, saltam exemplos da vida pacata dos nossos pais e avós e imagens da simplicidade de quem emprestava o pão à família do lado até que o forno se voltasse a aquecer para renovar laços de partilha entre pessoas e aconchego das mesas.

Em compasso lento e ponderado, ouvem-se vozes a repetir, vezes sem conta, que “tudo tem o seu tempo”. E sentimos que o” nosso tempo”, o tempo das brincadeiras e aventuras, já lá vai. Mas é sempre tempo de aprender e de voltar à escola.

Ao darmos conta da brevidade do percurso e da obrigação de não o deixar fugir, sem deixar obras e marca, invade-nos a certeza de que muita coisa ficou por cumprir, nesta corrida contra o tempo e as oportunidades perdidas. Nem vale a pena esganiçar a saudade e gritar para o tempo parar ou voltar para trás.

É quando se aperfeiçoam memórias das aulas de gramática, onde se aprendia a definir o tempo como o momento exacto em que se realizavam as acções e programas.

As variações como elas se desenrolavam ou se podiam concretizar davam lugar à linguagem condicional de cada um e a escapatórias de fingimento que dividiam o campo entre a realidade visível e concreta e a divagação imaginária de ideias virtuais que não saiam do papel.

As tentativas de “agarrar o tempo” obrigam a estabelecer prioridades que não alterem o sentido da oportunidade e a urgência de cada acto. Há quem prefira inverter o sentido da frase, misturando obrigações e urgências na espera indolente de que “há tempo para tudo”.

É no descanso dessa praia que morrem projectos de afirmação e conquista e planos de dias melhores, perdidos entre os velhos cardos da servidão humana.

Os meninos voltam às aulas.

Alguns enfrentam o desconhecido de regras e horários, da convivência e do confronto com outras realidades. Apesar das incertezas, é uma experiência fundamental para o seu crescimento. É, certamente, uma porta escancarada no seu caminho para a felicidade.

Os imprevistos e a ansiedade, o peso de compromissos inesperados e o cheiro de livros novos misturam a ousadia da idade com o medo de tropeçar a cada passo.

Cabe aos alunos de outros tempos protegê-los e incentivá-los a enfrentar o horizonte de cidadania que se abre à sua frente com a decisão e entusiasmo de quem nada teme.

Mais que os tempos, são os modos que os adultos deverão ensinar a conjugar.

E a melhor conjugação de tempos e modos é o exemplo de seriedade com que se enfrenta a vida e o futuro e a frontalidade de assumir responsabilidades e deveres.

Também para os mais velhos é tempo de regresso às aulas do respeito por si e pelos outros, levando na mochila a vontade firme de não excluir ninguém nem deixar nada para trás.

Essa escola não pode encerrar para férias ou matrículas. É de horário e semestres contínuos.

No dia a dia é que se conquistam licenciaturas e doutoramentos em cidadania.

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