Turismo sem bolsa

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António Fernandes Silva - colaborador Dão e Demo jornal digital

Por: António Fernandes Silva

Apesar das limitações da bolsa e do constrangimento dos orçamentos familiares, há sempre quem arranje a melhor posição para arrotar postas de pescada sem ter de pedir licença. Mesmo trincando uns carapauzitos, passados na brasa, há quem se julgue a saborear lagosta, como se aqueles soldados rasos estivessem graduados em general.

Claro que a fome e a necessidade são sempre a melhor companhia para qualquer petisco.

Mas toda a gente conhece os sonhos e a ambição do tareco escanzelado. Nem ele consegue disfarçar o apetite, apesar do laçarote ou da gravata florida com que se enfeita e lhe recomendaria maior discrição.

Já não se importa que o chamem guloso ou o acusem de reservar os melhores petiscos para a gataria lá de casa. As espinhas que as comam os outros.

Gato que se preze, terá que reconhecer, sempre e acima de tudo, as excelsas qualidades e a competência especial dos membros da família para manter longe dos tapetes e aposentos do palácio o mais pequeno sinal ou ameaça de intrusos roedores. Por isso os escolhe e nomeia. De outra forma, seria uma desgraça, até porque as cerâmicas e olarias já não fabricam gente de tamanha qualidade nem gatos tão atenciosos e diligentes.

São também eles que aguçam o apetite e a curiosidade aos familiares e amigos para que promovam as belezas da sua terra e dos produtos genuínos que por lá andam esquecidos.

Todos os anos a procissão vai em romaria à capital do império, exibir cartazes e bandeiras, artes e vantagens, património, vinhos e petiscos, doces e lavores como nunca por ali se viu. E regressam de peito cheio pelos aplausos merecidos, contentes porque a sua terra merece palmas, felizes porque receberam promessas de muitas visitas.

É o turismo a germinar nos pontos mais esquecidos do território. São os cordões a mexer. É o entusiasmo e o sonho a prometer melhores dias. São as postas de pescada a fazer efeito.

Quem viu tanta oferta e beleza depressa virá conhecer de perto essas maravilhas. Que as há!

Mas terá de contentar-se com a boa vontade de quem não gosta de os deixar partir a remoer desleixo e abandono e a rasgar todos os postais vistos na exposição da capital.

Se não houver marcação prévia, nos monumentos e sítios de maior nome, baterão com o nariz na porta. Nem as joias da coroa poderão ser apreciadas. Nem a viagem adiada. Terão de regressar pelo mesmo caminho ou por terras vizinhas para se acolher e aconchegar.

Esta desilusão repete-se ao longo do ano. E não vale a pena deitar foguetes a anunciar benefícios que esbarram em carências primárias e essenciais, conhecidas e continuadas.

As chupetas podem iludir os bebés por algum tempo. Mas não os enganam, quando crescidos. A não ser que gostem muito de chucha ou de ser enganados.

Há tantos anos – séculos – que temos tanta maravilha para mostrar ao mundo…

E todos os dias se pintam e remendam desculpas e razões para mostrar estas mãos cheias de nada e este amargo com que se vêm as pessoas a virar costas por não haver condições que as fixem e obriguem a bater palmas ao que lhes é mostrado nas feiras de turismo.

Os roteiros e marcações de percursos ajudam a conhecer as terras. Mas não chegam.

Nem a medalha da melhor cidade para viver pode deixar dormir e descansar quem se preocupa com todos os cantos e recantos da sua terra.

As postas de pescada precisam de bom acompanhamento.

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